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Diário de Notícias - 19 de Janeiro
Helena Sacadura Cabral
A crise
Acordo com as notícias de rádio: um especialista fala em jeito de crónica
sobre a crise política. Minutos mais tarde, sento-me para tomar o
pequeno-almoço e ligo a televisão para acompanhar o que se passa no País:
uma mulher foi esfaqueada pelo marido e faleceu a caminho do hospital. As
notícias continuam sobre a crise da direita. Depois de arranjada, meto-me
no carro a caminho do trabalho e, mal ligo o motor, apanho com mais um
noticiário. Desta vez são os estudantes que decidiram fechar os
professores dentro de uma escola, algures no Portugal profundo. De
seguida, um conhecido comentador escalpeliza a crise económica que grassa
no País, toda ela recheada de termos tão técnicos, que até eu própria, que
sou economista, tenho dificuldade de perceber. Chego ao escritório e,
juntamente com o café, a minha eficiente Matilde traz-me a habitual resma
de jornais nacionais, uma vez que os estrangeiros só dão o ar da sua graça
pelo final da manhã. Faço uma leitura enviesada dos cabeçalhos.
Confirma-se em detalhe o que já ouvira antes. Porém, surgem algumas
novidades. A casa do procurador fora assaltada, mas os ladrões não haviam
conseguido abrir o cofre, que se supõe deveria ter objectos (ou
documentos?) de grande valor... O meu, infelizmente, qualquer larápio
esforçado abriria sem problemas, apesar de me ter custado bastante caro.
E, claro, mais umas considerações sobre a crise da esquerda portuguesa,
acrescida de umas rusgas que permitiram desmantelar uma rede de
narcotráfico.
Enfim, quando começo a ocupar-me dos assuntos pendentes, estou com a
psique um pouco abalada, pelo que emborco segundo café. Chegada a hora, a
Matilde lembra-me o colega e o local para almoçar. Sentamo-nos e a
conversa vai directa para a crise que assola os meios de comunicação que
estão a dispensar pessoal e a pagar cada vez pior. Antes que tivesse tempo
de responder, um comum amigo aproxima-se de nós e, segundos depois, fala
na crise da publicidade, cujas receitas diminuem a olhos vistos.
Volto ao escritório já sem vontade de olhar para o Financial Times, cujo
tom rosa, subitamente, me parece mais laranja. Esfrego os olhos, borro o
rímel das pestanas, e leio, estarrecida, que o Dow Jones cai de novo,
agravando a crise na maioria das bolsas estrangeiras. Peço outro café e
tento desdramatizar a situação. Mais adiante um cabeçalho informa que o
príncipe Harry é alcoólico e consumidor de drogas, quadro decorrente da
crise que atravessam as monarquias... e as estruturas familiares em geral.
Lá se vai a minha esperança de que as crises fossem só nacionais. Vem novo
café.
Volto para casa. A Mariana comunica-me que o seu casamento está em crise e
que quer divorciar-se. Pego num porto seco, eu que habitualmente não bebo.
Sento-me no cadeirão e ligo o aparelho. O pivot fala dum fogo num lar e
mostra os velhos a descerem pelas janelas com a ajuda dos bombeiros.
Será que tudo isto é a tão falada crise? É seguramente... mas de valores!
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