Diário de Notícias - 14 de Janeiro

Felicidade

João César das Neves

Um número recente da revista britânica The Economist (22 de Dezembro, pp. 70-71) traz uma reportagem sobre um mercado insólito: o das empregadas domésticas filipinas, em Hong Kong. Emigradas da pátria e longe da família, obrigadas a trabalhar horários extensos e a viver em condições miseráveis, essas mulheres são uma das principais fontes de divisas do seu país. Mas o que interessou o articulista não foi a injustiça social, o estatuto laboral ou o impacte cambial, mas o profundo espanto perante um facto simples: estas raparigas são manifestamente muito felizes.

Sob o título "Uma antropologia da felicidade", o artigo descreve como, todos os domingos, seu único dia de folga, essas criadas invadem a praça central da cidade, para "fazer piqueniques, dançar, cantar, coscuvilhar e rir", num aberto contraste com a habitual rispidez e rudeza das ruas do "tigre asiático". Estas chamadas "auxiliares domésticas" vivem de forma que o texto classifica de "escravatura virtual", mas quase não têm problemas de drogas, suicídio ou depressão, crescentes na cidade. "Daqui, o mistério: aquelas que deveriam ser as mais miseráveis de Hong Kong são, segundo todos os indicadores, as mais felizes. Como?"

O correspondente, habituado a analisar cotações bolsistas e flutuações produtivas, tenta em duas páginas esboçar uma explicação para o enigma. A resposta que ensaia baseia-se no "cocktail étnico e histórico único que é a cultura das Filipinas - raízes malaias (quentes, sensuais, místicas), misturadas com o catolicismo e o espírito de fiesta dos antigos colonizadores espanhóis, ao qual foi acrescentado um toque de sabor ocidental, nos dias em que as ilhas foram colónia americana".

Em termos práticos, este factor complexo manifesta-se de duas formas simples. Primeiro, o economista nota que, segundo um estudo internacional, 97 por cento dos filipinos dizem acreditar em Deus e 65 por cento sentem-se "extremamente próximos" d'Ele. Estes são os níveis mais elevados registados nessa análise, mais do dobro dos valores dos países a seguir (EUA e Israel). Depois, a convicção tradicional de que "a sua vida não é separável das pessoas à sua volta". Saber que estão a trabalhar e a sacrificar-se pelos seus filhos, lá longe, é motivo de alegria e sentido de vida. A revista, abertamente anticristã, não o diz, mas esta receita filipina para a felicidade é simplesmente "amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo" (cf. Mc, 12, 30-31).

A felicidade é o fim último de tudo o que fazemos, já dizia Aristóteles. As outras coisas, "a honra, o prazer, a inteligência e a excelência, nas suas variadas formas..., escolhemo-las por causa da felicidade, na convicção de que serão meios de a assegurar" (Ética a Nicómaco, I, VII, 1097b, 3-6). Mas, neste tempo de tantos avanços incríveis, a felicidade parece afastar-se. Ela mantém-se um conceito inacessível à ciência e à técnica, senhoras supremas do nosso progresso. As investigações psicológicas, sociológicas, económicas e biológicas preferem noções mais mecânicas e mensuráveis, como "satisfação", "bem-estar" ou "impulsos neuronais". Assim, no meio de progressos notáveis, o verdadeiro objectivo da vida mantém-se oculto. É este o drama central do nosso tempo.

Por outro lado, o exemplo citado ajusta-se perfeitamente à atitude intelectual do homem moderno. As coisas da felicidade, da fé e da moral, assuntos vagos e subjectivos, são tema próprio para criadas de servir e espíritos inferiores. A sua mesquinhez e baixeza tornam-nas desadequadas às elevadas elucubrações dos filósofos iluministas e liberais, aos planos complexos dos positivistas reformadores e revolucionários, aos empreendimentos sólidos dos líderes empresariais e políticos. O nosso tempo está empenhado em assuntos demasiado importantes para ligar a manias de sopeiras.

Mas depois, inexoravelmente, embatemos contra a sua desarmante e paradoxal felicidade. As nossas construções e elaborações sofisticadas deixam-nos a vida seca e vazia, enquanto a atitude pseudoparola delas lhes enche a existência de uma alegria transbordante. No final, todos vamos morrer do mesmo modo. Só que a cozinheira, apesar da dureza das circunstâncias, foi intensamente feliz sob um Deus que a ama de perto e no meio das irmãs que lhe tornam presente esse amor, enquanto as nossas ideologias, negócios e luxos nos deixam ansiosos e insatisfeitos.

"O homem que vive na opulência e não reflecte é semelhante aos animais que são abatidos." (Sl, 49, 21.)

De forma patética, mas evidente, este contraste, que nos chegou inopinadamente da rica Hong Kong, neste Natal, e que o economista considera um mistério, é apenas a manifestação de um dos teoremas mais importantes acerca da felicidade. "Eu te bendigo, ó Pai, senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque isso foi do teu agrado." (Mt, 11, 25-26.) 

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