Diário de Notícias - 14 de Janeiro

Governe, incapaz!

Francisco Moita Flores

Afazeres profissionais levaram-me a Santiago do Chile. Na primeira escala, no Rio de Janeiro, comprei o último trabalho de Jean Ziegler, A Suíça lava mais branco. Tem sido interessante o percurso deste pensador, que começou a ser conhecido do grande público devido aos seus estudos sobre a morte e que nos últimos anos tem dedicado a sua vida à reflexão sobre o futuro do Estado, enfraquecido politicamente e minado por interesses e propósitos criminosos, como a corrupção, o tráfico de influências, o desvio de fundos e a ausência da ética política, que hoje dominam a política europeia. Ziegler reflecte sobre os meandros das operações de branqueamento de capitais na banca suíça e como a invulnerabilidade tradicional do sistema bancário produziu redes complexas de criminosos que utilizaram as estruturas do Estado para cobrir e desenvolver a actividade ilícita.

A segunda escala foi Buenos Aires. No dia seguinte, partiríamos para o encontro de criminologistas em Santiago do Chile. Mas no aeroporto argentino o nervosismo era muito. Percebia-se, nos cenhos carregados, na excitação das pessoas, na correria de outros, que algo não estava a correr normalmente. Fomos informados a caminho do hotel. A cidade estava em revolta. O Governo do Presidente La Rúa desfazia-se, o ministro da Economia, Domingos Caballo, o homem-chave da possível ressurreição económica do país, demitira-se e corria à boca cheia que o próprio Presidente ia cair. Havia mortos e tiros pela cidade e aconselhavam turistas e viajantes a não sair dos hotéis. Mas como ficar fechado, quando lá fora se ouvia o rugido de multidões e o matraquear esporádico de metralhadoras anunciando a agonia de um país?

A Argentina que agora se encolhia, desfeita em fome e revolta, desorientada e sem rumo certo, definhava ali, nos gritos e nos tiros, no ódio e na raiva de gente que não percebia, que olhava os dias já sem força para invocar vitórias antigas. A Praça de Maio, frente ao Palácio do Governo, faiscava. E a primeira surpresa daqueles que como eu decidiram escapar-se do hotel e ir ver foi a de que os milhares de pessoas que resfolegavam de ira não eram os habituais pobres, proletários sem esperança, mas filhos da classe média, quarentões bem-vestidos que buzinavam e gritavam protestos - e o mais ouvido era: "Governe, incapaz!"

Os pobres morriam nas rebeliões de bairro e o "incapaz", Fernando La Rúa, em vez de governar, pedia ao fotógrafo oficial que o registasse definitivamente a abandonar o seu gabinete da Presidência. Mas isso só se soube dois dias depois, em Santiago do Chile, quando a fotografia demissionária correu as primeiras páginas dos jornais da América Latina. E o livro de Ziegler voltou-me à cabeça.

A Argentina, a próspera Argentina que durante a primeira metade do século XX integrava os dez países com as economias mais fortes do mundo, estrebuchava, presa das suas contradições internas e, sobretudo, vítima do diletantismo, da corrupção, do consumismo desenfreado, do parasitismo. Fernando La Rúa foi Presidente, por ter uma imagem que o distanciava de tudo isto. Sério. Mas ser honesto não chega, para dirigir um país. Ainda por cima, carcomido por senadores, deputados, ministros, altos funcionários comprometidos e viciados no jogo de influências, interessados no lucro, na fortuna, no poder por qualquer meio, com qualquer chefe, com qualquer partido, egoístas e medíocres, vampiros e criminosos. Ziegler tem razão.

Um país não sobrevive a um Estado corrupto, minado por piratas e aventureiros que se acobertam na autoridade, na inimputabilidade, na inamovibilidade, para roubar, descaminhar, branquear. Um Estado assim é um Estado-bandido, porque acoberta bandidos. Governe, incapaz!

A incapacidade de La Rúa aguentar as pressões dos lobbies, dos cartéis, transforma-o momentaneamente em bode expiatório, para justificar um país em ruínas. Mas todos sabem que não é assim. A Argentina começou a estiolar no dia em que começou a viver acima das suas possibilidades, em que se endividou até ao tutano, para disfarçar a pobreza e a improdutividade, em que deixou a sua economia exposta à moeda americana e ao jovem mas pujante mercado brasileiro, que permitiu que corruptos e canalhas de todos os matizes, à sombra dos partidos e do poder, se infiltrassem no aparelho de Estado, para continuarem canalhas e ladrões.

Hoje, é um país irado e assustado. É o que acontece aos países governados por incapazes. 

[anterior]