Diário de Notícias - 14 de JaneiroEducação e
ciência: do pior ao melhor
Fernando Branco
Estamos num momento propício para balanços sobre as políticas
governamentais e eu gostaria hoje de reflectir sobre as áreas da educação
e da ciência. Apesar de diversas alterações se terem verificado na
estrutura dos vários governos do eng. António Guterres, a educação e a
ciência foram áreas em que se manteve a concepção original: o
primeiro-ministro optou por ter dois ministérios, um com a
responsabilidade de toda a acção educativa (desde o pré-primário ao
universitário) e outro com a responsabilidade da política científica
(também com impacto em todos os níveis de ensino, mas com predominância no
superior). Hoje são exemplos paradigmáticos do pior e do melhor nas
políticas governamentais dos últimos anos.
Na área da educação é muito difícil dizer que estamos melhor do que
estávamos em meados da década de 90. É certo que se alargou a cobertura do
sistema escolar, com esforço especial no pré-escolar. É certo que se
investiram muitos recursos. Apesar disso, é difícil encontrar medidas
objectivas de desempenho que mostrem que esse esforço se tenha transmitido
para uma melhor preparação dos nossos jovens. Num outro plano, quase nada
se fez no domínio da aprendizagem ao longo da vida. Numa altura em que é
claro que teremos de voltar à escola ao longo da nossa vida, e em que
diversos países têm já políticas activas nesse domínio, em Portugal há
alguns estudos, há investimento das empresas, mas não há uma política
pública.
Por outro lado, não se tomaram medidas estruturais fundamentais que
poderiam permitir que os próprios agentes escolares ajudassem a melhorar a
situação. Não se deram passos no sentido de alterar aspectos estruturais
de governação e de incentivos nas nossas escolas e universidades, que são
fundamentais para o empenhamento dos que nelas trabalham. Não se procedeu
a uma reforma do processo de financiamento que permita sustentar políticas
educativas correctas e premiar os melhores. Deram-se alguns passos no
sentido da avaliação de cursos superiores, mas com processos que
dificilmente geram bons resultados ou justificam os seus custos.
Ao invés, na área da política científica foram feitas importantes
melhorias. O sistema de avaliação e de financiamento existente hoje em
Portugal tem vindo a progredir de forma substancial e aproxima-se dos
padrões internacionais. A avaliação é hoje em muitas áreas feita com o
recurso a painéis de peritos internacionais, independentes e de grande
qualidade. Os critérios de avaliação são análogos aos utilizados
internacionalmente. O financiamento de centros e investigadores está
ligado com os resultados da avaliação. É certo que ainda subsistem algumas
deficiências: por exemplo, financiam-se, em geral, actividades e não
pessoas. Mas o grande quadro é muito positivo.
Mas porquê estas diferenças? Muito elementos terão concorrido, mas o
facto de o Ministério da Ciência e Tecnologia ter tratado uma pequena área
não será o menor de entre eles. Será que aprendemos com a experiência?