Diário de Notícias - 14 de Janeiro

Maus professores fora do sistema

Entrevista a Sérgio Raposo (dirigente estudantil) por CADI FERNANDES

O que é que pode ser feito para melhorar o ensino superior?

Havendo vontade, muita coisa, a começar pela avaliação pedagógica dos docentes, que devia ser obrigatória em todas as instituições e ter efeitos práticos, não ficando apenas no papel. No fundo, os professores têm que responder pelo trabalho que fazem. É que da mesma forma que, por vezes, há maus alunos e sofrem as consequências, reprovando, também há maus professores, que deviam sofrer as consequências. Infelizmente, o que se verifica é que os professores não têm "patrão", não respondem perante ninguém, não dão satisfações, muitos limitam-se a ministrar as aulas - quantas vezes apenas a passar acetatos -, não se sabendo se o fizeram, ou não, da melhor forma. Há um grande laxismo. Esses maus professores devem ser retirados do sistema de ensino ou "reabilitados" através de acções de formação.

O Ministério da Educação (ME), no seu entender, pactua com esta situação?

Sim, porque o lobby dos professores é muito forte e está enraizado em quase todas as áreas. Isto é, o ME é quase todo composto por professores e há muitos professores noutros ministérios...

Sobre o pagamento das propinas, o que lhe apraz dizer?

Sou contra, pois defendo a gratuitidade do ensino. O que se tem visto é que esse dinheiro não é aplicado na melhoria da qualidade do ensino, mas no pagamento de salários e em despesas de manutenção. Esta injustiça gerou uma

perversão: os estudantes acabam por pagar os salários dos bons e dos maus professores.

De que forma pode o ME actuar?

Devia impor um mecanismo que impedisse que o dinheiro das propinas fosse incluído, abusivamente, na rubrica das receitas próprias. Há aqui um facilitismo direccionado do Governo: conhece a situação, mas até lhe dá jeito que as coisas sejam assim.

As instituições de ensino superior têm razão quando se afirmam vítimas de subfinanciamento?

O subfinanciamento, é importante que se diga, também passa muito pela má gestão das escolas, porque os professores não dão a melhor aplicação aos fundos de que as instituições dispõem.

Defende, portanto, que a gestão esteja a cargo de profissionais?

O que eu defendo é a existência de um sistema democrático nos órgãos de gestão, através da paridade (mesmo número de professores e estudantes). E esses órgãos de gestão democráticos deviam, isso sim, contar com a assessoria de gestores profissionais. Actualmente, ainda há politécnicos que só têm a figura do director e não do conselho directivo, o que não permite uma gestão com a perceptibilidade de todos os corpos que compõem as instituições - professores, estudantes e funcionários.

Politécnico ainda é desconsiderado

O ensino politécnico continua a ser "filho de um deus menor"?

Continua a ser desconsiderado, apesar de ter grande importância no progresso do País.

O Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos é, de algum modo, responsável por essa "desconsideração"?

Sim, está a fazer um péssimo trabalho. Quem está à frente do CCISP fica impávido e sereno a ver o barco passar, enquanto o Conselho dos Reitores das Universidades Portuguesas tem cada vez mais visibilidade e uma afirmação muito maior junto do ME.

Essa visibilidade foi bem "agarrada" por Adriano Pimpão, após a entrada de Júlio Pedrosa no ME?

Sim, o reitor da Universidade do Algarve tem sabido afirmar o CRUP, ocupando mesmo o espaço que estaria destinado ao CCISP. Mas, felizmente, deverá haver uma renovação, por causa das eleições para o CCISP, que se realizam em Março.

Um dos nomes de que se fala é o do presidente do Instituto Politécnico de Castelo Branco. Seria uma hipótese?

Pelo trabalho que tem demonstrado e o protagonismo que tem tido em defesa dos interesses do politécnico, talvez tenha as características indicadas.

O que mudaria no CCISP?

A visibilidade do politécnico e a maneira de as pessoas encararem o nosso subsistema de ensino. Convém ainda lembrar que Válter Lemos é um profundo conhecedor do Processo de Bolonha.

Falando nisso, a discussão desse tema não se tem "enredado" numa questão de designações?

Sim, e é pena, porque as designações constituem uma questão menor. As universidades não podem ficar à defesa, pensando que vão perder com o Processo de Bolonha, porque é muito mais do que equiparar graus de ensino superior na Europa. Representa uma oportunidade para uma mudança radical, na medida em que podemos ir buscar boas experiências ao exterior.

Uma mudança de Governo poderá ter efeitos negativos no "assimilar" do processo para a realidade nacional?

De facto, foi esta equipa governativa que introduziu o tema a debate e Pedro Lourtie, secretário de Estado do Ensino Superior, teve visão quando deu prioridade a este assunto. Penso que os estudantes devem aproveitar a mudança de Governo para estabelecer limites aos partidos sobre o que pretendem que seja o Processo de Bolonha. Ou seja, impor, de certa maneira, o que pensamos ser o mais correcto. Não pode vir um novo Governo e todo o processo regressar à estaca zero.

O Processo de Bolonha vai ser debatido no próximo ENDA (Encontro Nacional de Dirigentes Associativos)?

Sim, só que será debatido no último painel do último dia do ENDA, o que poderá ter sido feito para desmobilizar a discussão, porque o mais lógico é que se prolongue pela noite dentro. Penso, contudo, que seria um tema muito mais pertinente do que a análise da "luta estudantil". 

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