Diário de Notícias - 29 de Janeiro

Penas mais pesadas para os pais e alunos
MARIA JOSÉ MARGARIDO

Os pais e alunos que agridam professores devem sofrer penas mais pesadas do que aquelas que estão reservadas aos autores de violência física sobre outros cidadãos. O Conselho Nacional de Educação (CNE) quer que os docentes sejam equiparados às autoridades públicas quando forem vítimas de crimes ou agressões no exercício das suas funções, uma medida polémica contida num parecer sobre a "Indisciplina nas Escolas", a ser discutido para aprovação na quinta-feira.

Mais: o documento defende também que o poder disciplinar dos professores deve ser mais "efectivo" - ou seja, mais imediato e eficiente na admoestação e castigo dos alunos.

Segundo o mesmo parecer - a que o DN teve acesso e da autoria dos conselheiros Fernando Regateiro, Rui Namorado e Ana Rita Varela -, é necessário "criar condições que favoreçam o reforço da autoridade dos professores no seio da comunidade educativa". E isto passa também pela revisão do Regime Disciplinar dos Alunos, "tornando-o mais ágil e efectivo" - o que implica uma crítica ao actual modelo (caracterizado pela pedagogia das punições, através de trabalho a ser efectuado na escola ou na comunidade).

O documento do CNE - orgão consultivo do Ministério da Educação - sublinha que o problema da indisciplina nas escolas traz consigo um risco de violência cada vez mais acrescido, que "tem de ser enfrentado no campo das políticas educativas". Mas o combate não se esgota aí - é preciso que a própria sociedade e cultura mediática mudem.

Outra linha de força defendida pelo parecer é a articulação, com as escolas, dos projectos especiais de combate à exclusão, assim como a criação de uma rede de observatórios sobre a indisciplina e a violência nos estabelecimentos de ensino. Os pais não podiam deixar de ser envolvidos na estratégia, e o documento refere que os encarregados de educação devem ser "co-responsabilizados" na implantação de um "clima civilizado de convivência entre todos os membros da comunidade educativa". Sugere-se mesmo que deve haver uma contratualização com os pais dos "mecanismos de resposta às situações mais gravemente lesivas do funcionamento da escola" - o que sugere uma partilha de responsabilizades, firmada no papel, em caso de actos de indisciplina graves por parte dos seus filhos.

Para além disto, há um conjunto de orientações político-pedagógicas "que têm vindo a ser desenvolvidas e deveriam ser mais articuladas", como a educação para a cidadania (uma disciplina recentemente introduzida nas escolas); a educação multicultural (que tem em conta as diferenças étnicas dos alunos); e a cooperação "mais sistemática" com as autarquias locais - com relevo para a necessidade de revitalização dos conselhos locais de educação. Como indispensavel surge também a adopção de um projecto educativo que combata o ensino exclusivamente virado para os exames e testes, como é praticado na maioria das escolas.

"Se hoje há uma tempestade na escola, os professores estão no centro dela", lê-se na introdução do parecer. Daí que o principal ênfase seja colocado na defesa da autoridade dos docentes, que corre sérios riscos de deixar de ser reconhecida. O debate do documento será certamente aceso.

[anterior]