Diário de Notícias -
28 Fev 08
O desencantamento da Política
Maria José Nogueira Pinto
Acontece aos povos, como acontece às pessoas, essa
espécie de depressão colectiva, a falta de futuro,
uma caminhada sem rumo, a coesão minada pela perda
de identidade, a ausência de um sentimento
unificador. É o "Portugal a entristecer" de que nos
falou Pessoa, o desencantamento da política no seu
verdadeiro e etimológico sentido, o desleixo no
cuidar da Polis, a Cidade adiada pela ditadura do
acessório e do efémero.
Há muito que os sinais de desmoralização colectiva
estão presentes no quotidiano português e são
antigas as causas que minaram a confiança entre
representados e representantes, entre eleitores e
eleitos. E não se trata só do mérito e demérito da
governação, é definitivamente algo mais sério, um nó
cego de sentimentos e incertezas que geram a
descrença e essa invasiva lassidão colectiva. Algo
que tem a ver com o estado da nossa democracia e com
a dimensão moral da representatividade, uma dimensão
que os representantes parecem ignorar.
Tem particular oportunidade o documento elaborado
pela Sedes, sistematizando os sinais de alarme que
apontam para "uma crise social de contornos difíceis
de prever..." Algo perigoso num tempo esvaziado de
alternativas a regime e lideranças.
O primeiro sinal de subversão veio dos partidos ao
tornarem-se fins em vez de meros instrumentos de
representação, transformando- -se em coutadas e
esgotando grande parte da sua actividade em lutas
internas por manter lugares, mordomias e
influências. A convivência promíscua com todos os
"poderes" emergentes teve o desfecho previsível:
primeiro os escândalos ligados ao futebol, depois
aos agentes económicos, já não um caso ou outro, uma
actuação individual, mas de modo quase
institucionalizado, num "toma lá, dá cá" feito com
uma tal naturalidade que só é explicável pela
interiorização, ao mais alto nível das lideranças,
da impunidade como regra. Deterioradas as funções de
representação e convocatória dos partidos,
questiona-se agora a sua utilidade.
Por outro lado, tornou-se patente a comum
incapacidade de pôr o Estado no seu lugar. Desde a
versão do país nacionalizado e do Estado superpai
até hoje, foram mais de trinta anos de equívocos
partilhados, de redes de dependências cada vez mais
consolidadas, um deficit conformado de sociedade e
cidadania. Sendo que o problema mais grave, hoje, já
não é o de o Estado estar onde não deve, mas o de
estar mal e sem qualidade onde faz falta.
A sociedade de informação em que nos afundámos, o
excesso de vida induzida, os cidadãos transformados
em passivos homo videns, o modo como a comunicação
condiciona as reacções individuais e colectivas,
explica também a situação em que nos encontramos.
Por um lado, o desaparecimento dos nexos de
causalidade, das causas e dos efeitos, impede que a
maioria perceba o que é que realmente acontece, por
outro, a ditadura do efémero impede uma justa
avaliação dos factos. A Justiça é um bom exemplo
deste fenómeno como se viu no processo Casa Pia
conduzido, desde o seu início, num tempo e num modo
mediático que levou a reboque um Sistema Judicial
altamente impreparado para casos daquela magnitude e
radicou no cidadão comum a convicção que o modo como
a Justiça não funciona, destrói os seus próprios
pressupostos.
Uma cultura banalizadora criou um clima propício à
relativização moral, admitindo-se que nada pode ser,
objectivamente, mau ou bom, quer na esfera do
público quer do privado.
É tudo isto que, provavelmente, explica o que
aconteceu no BCP; ou a facilidade com que se
convence uma população a exigir um bloco de partos
mesmo quando tudo indica que é melhor não o ter; ou
que um ministro, face ao crescente risco de pobreza
das crianças, responda que já aumentou os subsídios;
ou que os visados nos mais recentes escândalos
políticos se comportem como se nunca tivessem
exercido cargos públicos; ou que a avaliação dos
professores possa constituir o tema mais relevante
do debate político nacional; ou que o segredo de
justiça funcione como uma agência noticiosa. Em
suma, explicar o inexplicável.