Público - 8 Fev 08
O impacto do aborto na saúde da mulher
Margarida Castel-Branco
Não creio que haja grandes motivos de celebração no
próximo dia 11 de Fevereiro
Um ano decorreu, e o aborto em Portugal, nas fases
mais precoces da gravidez, é já uma realidade. Mas
que realidade é esta? Os números, curiosamente,
estão aquém do esperado: a estimativa era de 20 mil
abortos por ano, mas tudo aponta para que esse
número não ultrapasse os 10 mil. Mas ainda é cedo
para tirar conclusões. O que é certo é que o aborto,
agora legalizado, não é mais uma causa feminista.
Mas começa a ser pensado no feminino. Afinal,
praticar ou não um aborto terá as mesmas
consequências? Num momento complexo de grande
tensão, a mulher é, naturalmente, levada a pensar
nas implicações de ter um filho (indesejado) para
toda a vida. Mas quem é que a alerta de que fazer um
aborto também terá consequências... para toda a
vida?
Num encontro recente, especialistas norte-americanos
e portugueses de diversas áreas científicas
(psiquiatria, psicologia, obstetrícia, bioquímica,
farmacologia) debateram e ilustraram o impacto do
aborto na saúde da mulher, tanto a nível psicológico
como físico. Vale a pena determo-nos um pouco nas
suas conclusões. Actualmente, a síndrome pós-aborto
- considerada como sendo um tipo de desordem de
stress pós-traumático - é internacionalmente
reconhecida. A associação do aborto induzido com o
aparecimento de diversas doenças mentais - entre as
quais ansiedade, depressão, irritabilidade,
explosões de agressividade, incapacidade de
manutenção de relações conjugais, dificuldade de
relacionamento com outros filhos que vêm a seguir,
comportamentos neuróticos, esquizofrenia, doença
bipolar - é uma realidade para a maioria das
mulheres que praticam um aborto. É como se o filho,
em vez de se desenvolver no útero, passasse a viver,
para sempre, no cérebro...
Mas as consequências do aborto também se fazem
sentir a nível físico. Hoje sabe-se que o aborto
induzido aumenta em 30 por cento o risco de cancro
da mama, quando se comparam mulheres que fizeram um
aborto com mulheres que nunca o praticaram ou que
sofreram um aborto espontâneo. A explicação
científica é simples: no desenvolvimento fisiológico
da gravidez ocorrem picos hormonais de estrogénios,
que, se forem bruscamente interrompidos - como
acontece num aborto induzido -, vão desencadear
alterações no material genético das células que,
facilmente, poderão degenerar em cancro.
O risco de parto prematuro em gravidezes
subsequentes também é duas vezes maior, quando se
comparam mulheres que fizeram um aborto com mulheres
que nunca o praticaram; se, em vez de um, a mulher
tiver praticado dois ou três abortos, esse risco
aumenta entre 6 a 12 vezes. Actualmente estima-se
que 1/3 dos partos prematuros ocorra em mulheres com
história prévia de abortamento.
No que respeita ao tipo de aborto praticado,
verifica-se uma tendência para que, nas fases mais
precoces da gravidez, se recorra preferencialmente
ao aborto medicamentoso. Este, concretizado com a
toma da pílula abortiva RU486 (mifepristona), no 1º
dia, e de uma prostaglandina (misoprostol), 36 a 48
horas depois, aparece como sendo benéfico para a
mulher, ao permitir-lhe abortar de forma simples,
segura, não traumática e num ambiente de grande
privacidade. Além disso, se não tiver complicações,
sai mais barato. Mas sabemos que não há medicamentos
banais. Assim, após a toma da RU486, podem surgir
desconforto e dor abdominais, náuseas, cansaço e dor
no peito, enquanto logo após a toma da
prostaglandina começam as cólicas uterinas fortes,
os espasmos (dolorosos), as náuseas e os vómitos, a
diarreia, os tremores e a febre, as tonturas e as
crises de hipotensão. Numa segunda fase, os efeitos
secundários podem ser levados a tal extremo que se
convertem em complicações. (...)
Tudo isto se refere a abortos legais. Assim, não
creio que haja grandes motivos de celebração no
próximo dia 11 de Fevereiro.
Entretanto, há que apostar na educação da
afectividade dos nossos jovens. Como diz o povo:
"Mais vale prevenir do que remediar!" E é tempo de
nos voltarmos para a mulher e lutar verdadeiramente
pela sua saúde, aprofundando as consequências do
aborto legal e informando-a, com sinceridade, sobre
elas. Docente da Faculdade de Farmácia, Universidade
de Coimbra