Correio da Manhã - 11
Fev 07
Depressão - Custo de 6,6 mil milhões de euros
Suicídio sobe em Portugal
João Saramago
A depressão leva muitas vezes ao suicídio,
fenómeno que está a aumentar em Portugal – todos os
anos põem termo à vida 1100 pessoas. Esta taxa
resulta do elevado número de indivíduos com
distúrbios mentais, que no nosso país é de um em
cada três. Um problema de saúde pública que faz
disparar, de ano para ano, o consumo de
medicamentos.
Vítima de uma depressão, Erika Ortiz, irmã da
princesa Letizia, morreu terça-feira possivelmente
depois de ingerir uma dose excessiva de
tranquilizantes. A morte da jovem de 31 anos, que
deixou uma filha de seis anos, relança a questão do
drama dos que sofrem de distúrbios mentais e para
quem o suicídio surge como solução.
Este é um flagelo que cresce entre nós. São
assustadores os últimos dados divulgados pelo
Conselho Europeu das Doenças Cerebrais, que na
observação de 28 países colocam Portugal em 12.º na
lista da prevalência das doenças do foro
psiquiátrico ou neurológico. São 2,9 milhões os
portugueses com distúrbios mentais. As principais
causas são: ansiedade, com 981 mil casos;
enxaquecas, 894 mil; desordens afectivas, 528 mil;
dependências, 196 mil.
Quanto aos custos das doenças, o estudo de 2005
indica que foram gastos 6,651 mil milhões de euros
em cuidados hospitalares e ambulatórios,
medicamentos, limitações na capacidade de trabalho,
absentismo e reformas antecipadas, o que coloca o
País em 13.º dos 28 países. A maior parte dos gastos
resulta das baixas e das reformas antecipadas (2,523
mil milhões de euros) e cuidados com a saúde (2,230
mil milhões).
O aumento do número daqueles que precisam de apoio
médico para combater os distúrbios mentais resulta
num consumo excessivo de medicamentos, pelo que a
Direcção-Geral de Saúde espera reduzir o consumo de
antidepressivos em 20 por cento, até 2010.
O elevado número de pessoas vítimas de depressões e
outras perturbações nervosas coincide com o agravar
do número dos que cometem suicídio. De acordo com
dados da Organização Mundial de Saúde, em 2003 a
taxa de suicídio por cem mil habitantes era de 11.1
no nosso País. Em 2000 a taxa era de 5.1.
Carlos Lopes Pires, professor da Faculdade de
Psicologia da Universidade de Coimbra, explica que
“a depressão fomenta no indivíduo a ideia de
inútil”. “‘Não ando cá a fazer nada’ é muitas vezes
a frase ouvida”, refere o psicólogo clínico,
acrescentando que “o suicídio começa então a ser
formulado como uma possibilidade”.
Entre as causas para a depressão, Carlos Lopes Pires
sublinha “a existência de uma sociedade altamente
competitiva que valoriza o sucesso a todo o custo e
dá grande importância à aparência exterior”. A não
satisfação do indivíduo consigo próprio abre caminho
aos medicamentos. “São substâncias que criam a
sensação de felicidade, que dão pica, mas criam
dependências”, disse.
ERIKA DEIXOU CINCO CARTAS
Erika Ortiz, irmã da princesa Letizia, cujas cinzas
deverão ser conservadas no cemitério de Sardéu, nas
Astúrias, deixou cinco cartas antes de tomar a
decisão de pôr termo à vida através da ingestão de
remédios, possivelmente tranquilizantes. Nem a
polícia nem a Casa Real espanhola revelaram a quem
foram dirigidas as cartas, nem os conteúdos. As
cartas estão em poder do juiz de instrução número 12
de Madrid, entidade que coordena as investigações
que apontam directamente para suicídio.
Erika sofria de uma depressão. Ontem, a rainha Sofia
e os príncipes das Astúrias assistiram à missa
funeral pela alma de Erika Ortiz na paróquia de
Nossa Senhora da Anunciação de Prado de Somosaguas,
em Pozuelo (Madrid).
REMÉDIOS PERIGOSOS
Os portugueses consomem antidepressivos e
tranquilizantes em excesso, pelo que a
Direcção-Geral de Saúde considera que este é um
problema de saúde pública. O excesso de
antidepressivos resulta, segundo o professor da
Faculdade de Psicologia da Universidade de Coimbra,
Carlos Lopes Pires, em parte pelo sucesso do
marketing farmacêutico.
“É transmitida a ideia de que o tratamento
psicológico é mais caro, demora mais tempo e os
resultados não são tão eficazes em comparação com o
consumo de medicamentos.” O psicólogo clínico
acrescenta que “há medicamentos antidepressivos da
chamada nova geração, cujas substâncias activas são
a fluoxetina ou a paroxetina, que provocam mesmo a
morte aos pacientes, embora isso aconteça poucas
vezes”. Carlos Lopes Pires sublinha que há um
aumento da procura de consultas de psicologia. Em
2003, foram gastos 96,4 milhões de euros em
antidepressivos. Destes, 65,7 saíram dos cofres do
Estado em comparticipações.
GRANDE PROCURA
MAIS VENIDOS
Na lista dos dez medicamentos comparticipados mais
vendidos em Portugal, três são tranquilizantes. O
Lorenin, que ocupa o terceiro lugar do top 10,
vendeu em 2003 cerca de 1,5 milhões de embalagens. O
Xanax, quarto na lista, vendeu 1,4 milhões e o
Lexotan 960 mil embalagens, revela a ‘Estatística do
Medicamento’, da autoridade do medicamento, Infarmed.
MILHÕES DE CAIXAS
Em 2004 os portugueses compraram seis milhões de
caixas de antipressivos. Estes representam 64 por
cento dos psicofármacos. A cada ano, são vendidas
mais 1,4 milhões de embalagens para controlar
distúrbios mentais.
CONSULTAS CRESCEM
Por ano é realizado meio milhão de consultas de
psiquiatria, sendo as neuroses, esquizofrenia e
depressões os problemas mais frequentes.