Público - 7
Fev 07
Duarte Vilarinho Com que direito digo que aquele
indivíduo "vai à vida"?
Duarte Vilarinho nasceu em 1968.
Casado, quatro filhos.
Ginecologista obstetra.
Experiências profissionais no Hospital de Setúbal (4
anos),
Santa Maria e, a partir de ontem, Hospital da Luz
(privado), em Lisboa
Ainda encontra tempo para se deslocar à cafetaria.
Só dentro de 24 horas serão inaugurados, com uma
operação, os serviços de obstetrícia da mais recente
unidade hospitalar de Lisboa, o Hospital da Luz,
cujo projecto diz ter "abraçado".
Invocar os quatro anos que passou no Hospital de
Setúbal torna-se recorrente, na conversa.
"Contribuiu muito para um acerto da minha visão
sobre estas coisas. Ali, é de facto uma das zonas
mais degradadas socialmente do nosso país, com
repercussões nos abortos", conta, nada impressionado
quando o informamos que a sua "parceira" nesta
página fundamenta em experiências profissionais
semelhantes o "sim" que vai escrever no boletim de
voto deste domingo.
Considera dispensável esta iniciativa: "Houve alguma
alteração sanitária? Não houve. Social? Não houve.
Há mais condenações em tribunais? Não, os juízes são
cada vez mais sensíveis. De 1998 para cá abriu-se
muito o leque [de abortos autorizados nos
hospitais]. Porquê, então, este referendo?"
Compreende certas circunstâncias em que o aborto é
feito. Mas "há mulheres a quem isso não pesa, seja
por questões culturais, seja por outros motivos", e
outras "que o fazem com uma grande desfaçatez.
Nestes casos, a lei deve ser aplicada, competindo
aos juízes proceder à sua adequação".
Insurge-se contra a "teoria do sucesso, em que só
interessam tipos perfeitos; nada de caminhos
alternativos". "Com que direito digo que aquele
indivíduo "vai à vida"?"
Traz, a propósito, um caso de possíveis sequelas
gravíssimas para a criança, ainda que operável em
certas condições, numa senhora com 22 semanas de
gravidez. A informação, tal como foi dada pela sua
equipa, "quase lhe sugeriu o aborto", que foi feito.
No dia seguinte, ao jantar, uma amiga da mulher
contou a história de um sobrinho que teve o mesmo
problema e que, operado por Gentil Martins, era
agora o melhor aluno do colégio de S. João de Brito
e jogava futebol como ninguém. "Senti-me
horrivelmente."
Duarte Vilarinho não assumiu, até hoje, a objecção
de consciência. Mas admite que a partir de agora o
venha a fazer.
Não