Ecclesia - 25 Fev 04
Aborto
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Estou sentada a olhar para uma fotografia dos meus filhos e sobrinhos
tirada há quase dezoito anos. São treze ao todo. O meu filho mais velho
tem um bebé nos braços, a mais nova nessa altura. Hoje a minha mãe tem
vinte e um netos e seis bisnetos. Durante vários anos o Pedro aparece nas
fotografias que a minha mãe insistia em tirar sempre que os conseguia
juntar, com um bebé nos braços. Tudo isto é normal em famílias grandes,
mas o que não é tão comum é que estão todos a rir e transmitem, através
das posições e da maneira como estão encostados uns aos outros, uma
alegria em estarem juntos, uma solidariedade que felizmente perdura ainda
hoje.
Se uma família é uma célula da sociedade podíamos esperar que esse
sentimento de solidariedade, de entreajuda, essa alegria de pertencer à
mesma grande família de portugueses, também existisse no país. Claro que
todas as famílias têm os seus desencontros, nenhuma é "ideal", mas
nalgumas a vontade de resolver esses desencontros, nunca esquecer que
somos irmãos, como diz o Vasco, meu marido, acaba por se sobrepor às
zangas. Durante este último ano a grande família portuguesa tem vivido
momentos particularmente difíceis; problemas financeiros, desemprego,
escândalos, segredos de justiça que não são respeitados e agora toda a
discussão à volta desse tema tão pesado que é o aborto. A família que já
se sentia tão insegura ficou dividida, seus membros virados uns contra os
outros com posições extremadas, e esqueceu-se dos laços de irmandade que a
unia. Mas será que a família está tão dividida ou será que é essa a imagem
transmitida por alguns elementos da comunicação social que exploram o tema
de uma maneira superficial, encorajando o conflito e não o diálogo sério,
de tal maneira que muitos desligam a TV e o rádio e fecham os jornais
quando ouvem ou vêem a palavra aborto.
No tempo dos romanos o aborto era prática livre e, após o nascimento, uma
criança só adquiria identidade quando o pai lhe pegasse ao colo. Se isso
não acontecesse a criança era posta de lado para morrer. Hoje parece que
nos querem convencer que o bebé ainda por nascer só tem identidade, e
direito à vida, se a mãe o aceita. Fala-se pouco ou nada no pai. Aflige-me
que nas escolas e nos colégios, muitos deles católicos, onde costumo fazer
acções de educação sexual, a maior parte dos alunos dizem abertamente e
com convicção, que basta que uma criança não seja desejada para se
justificar o aborto. O direito à relação sexual e ao prazer não se
questiona, mas não se admite que a vida fique "estragada" por uma
gravidez. O que será de uma geração que só faz aquilo que deseja?
Aflige-me que, mil e quinhentos anos após os romanos, se continue a ver o
aborto como uma solução para uma gravidez problemática, que em nome da
liberdade da mulher se crie uma clivagem entre mãe e filho, entre pai e
filho, entre homem e mulher.
Aflige-me a esquizofrenia que muitos são obrigados a sofrer ao negarem a
existência de vida quando o filho não é desejado, para depois vibrarem com
a primeira ecografia do filho desejado.
Aflige-me a manipulação da opinião pública que ocorre em torno de
julgamentos, tornando impossível um diálogo sereno, sensato, fundamentado
na ciência e em reflexões éticas e filosóficas.
O aborto por si não resolve o problema que levou a mulher a abortar; a
pobreza, a relação complicada continuam. Basta olhar para os países onde o
aborto foi liberalizado para ver que os problemas sociais que o aborto
livre supostamente resolvia, continuam a existir. Muitos dos países que
liberalizaram o aborto há anos, discutem agora a legalização da eutanásia.
As propostas de liberalização do aborto (aborto a pedido) pedem que este
seja livre até às dez ou doze semanas. E depois? Porque não até às
dezasseis ou até às vinte e quatro semanas (seis meses)?
Uma família que não cuida dos seus membros mais novos e mais fracos não
investe no seu futuro.
Mary Anne d'Avillez
Fevereiro 2004 [anterior] |