Diário de Notícias - 25 Fev 04

Almada une pais e filhos
CRISTIANA VARGAS Margem Sul

Um grupo de adultos e crianças percorre os corredores do Museu da Cidade de Almada, onde é convidado a explorar de diversas formas as propostas da exposição permanente. Cantam, pintam, dramatizam, constroem poemas de palavras soltas e imagens, emprestando a sua visão pessoal e obviamente única dos temas presentes: água, casas, pessoas, trabalho, enfim, a cidade. É esta a aposta da oficina de pais e filhos «Um pé cá... outro lá», desenvolvida pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. No final, todas estas experiências serão mostradas ao mundo através de um site a criar na Internet.

Os ateliers decorrem aos sábados e estão abertos a pais e filhos mas também a avós e netos. São pessoas de formação e idades diferentes, mas que se despem de preconceitos e, junto com os mais pequenos, sentam-se no chão enquanto abraçam o desafio de construir um poema gráfico a partir de palavras que ganham novos significados com os arranjos conseguidos a partir de uma imaginação sem limites. Aqui, as crianças são um especial contributo, talvez porque são mais livres de conceitos formais.

A água e a sua importância para a cidade de Almada foi um dos temas já abordados. «Afastam-se ligações óbvias, como o papel do rio como meio de transporte e há um vai e vem constante entre diversas linguagens, uma fuga aos estereótipos e uma aprendizagem permanente de parte a parte», sem que sejam os adultos a ditar as regras... antes pelo contrário. «É preciso voar um bocadinho», diz ao DN a coordenadora deste projecto, Elisa Marques.

Depois, chega a hora de passar para a tela o que se sentiu, de «levar o som na memória e o poema na mão» e, com «um pé cá, outro lá, pintar o que isso dá».

O mote está dado e os resultados são espantosos. A Maria, de nove anos, decidiu ilustrar um sol e uma nuvem, «porque havia a palavra chuva e quero mostrar de onde ela vem», diz num tom decidido. Ao lado, o Bruno, de apenas cinco anos, opta por um enorme peixe vermelho, porque, revela com acanhamento, viu muitos na caixa onde momentos antes literalmente pescaram mensagens relacionadas com a água.

«É uma colaboração mãe-filha, filha-mãe, em que ela deu o tema e eu tive de o seguir», diz a Sofia, conformada com a «fase dos cavalos» da pequena Catarina, de cinco anos, que tenta criar as formas daquele animal.

No exterior, a outra filha, Raquel, decide-se por uma pintura plena de significado, «duas margens separadas pela poesia nas mãos a preto e branco», associações surpreendentes para quem só tem oito anos. O mesmo se pode dizer do desenho do Eduardo, de nove anos, que escolheu «um homem tipo dread», só porque o seu grupo apresentou o poema em forma de rap.

No final, arrumam-se os materiais e anunciam-se os próximos temas, sempre com muitas surpresas e tendo como únicas fronteiras as linhas orientadoras.

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