Público - 24 Fev 04

Comentários às Declarações do Dr. Villas-Boas

"Remar contra a corrente" normalmente é penoso e expõe-nos a dificuldades acrescidas. Mas quando o "mainstream" no nosso jornal favorito vai frontalmente contra a nossa própria maneira de ser, vale a pena o esforço. Todos sabemos o que o dr. Luís Villas-Boas disse aqui no PÚBLICO (sobre o tema da adopção de crianças por parte de casais homossexuais). Caiu-lhe toda a gente em cima... Como as suas declarações já foram dissecadas que chegue, venho comentar algumas das ideias dos que ferozmente se lhe opuseram ( na edição do PÚBLICO de domingo, 22 de Fevereiro).

Augusto M. Seabra, ao comentar a frase de Villas-Boas "ser lésbica não é ser mulher na plenitude natural do termo", afirma (sintetizando): "é porque da mulher se espera (exige?) que cumpra o seu papel (missão?) reprodutora". Não é isso que está em questão. O que é normal e natural (e o que a sociedade em geral espera) é que mulher se una em sentimento e acto físico com homem. Pode, como Augusto Seabra diz mais à frente, "as sexualidades serem também construções culturais e não apenas dados 'naturais'". Pois aqui é que reside o cerne da questão, senhores. Virou moda aceitarem-se (e até em alguns casos de forma legal) uniões homossexuais como algo de perfeitamente normal, produto de uma tendência cultural... Pois da minha cultura não é com certeza... Diz o comentador mais à frente que "não estão em discussão as convicções íntimas de cada um, nem os modos das sexualidades, mas sim o plano dos direitos [decorrentes de decisões tomadas por alguns tribunais, mormente nos EUA, que cita] e das políticas".

Ana Sá Lopes vai mais longe, ao dizer textualmente "o pior da família tradicional é a sua capacidade de produção e reprodução de exemplares como o sr. Luís Villas-Boas"!! Isto é ofensa pura e grave! Pode discordar-se de qualquer pessoa, mas produzirem-se afirmações deste calibre é fugir ao mais elementar bom-senso e ao nível mínimo que se exige de um(a) comentador(a)! Como disse Marcelo Rebelo de Sousa na sua análise do mesmo dia (sobre outro tema), "mesmo ao maior criminoso se exige respeito enquanto ser humano", e o que Ana Sá Lopes diz é total falta de respeito pela pessoa do dr. Villas-Boas, por mais que possa discordar das afirmações proferidas!

O tema prestava-se a uma escalpelização mais profunda, falta-me é o espaço, infelizmente. Pela minha parte assumo que o natural dentro do casal é a heterossexualidade, bem como a monogamia do ser humano quando assume compromisso sentimental com alguém, assim como a fidelidade conjugal. É óbvio que a corrente dos que pretendem impor a homossexualidade como algo de perfeitamente normal e aceitável está a ganhar peso, e para mim, como cidadão, marido e pai de filhos, não é por haver tribunais a decretar uniões de homossexuais que este tipo de comportamento se torna aceitável. (...)

Carlos Gilbert

Porto

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