| Público - 23 Fev 04
Estórias de Mulheres Cambaleantes, Polícias, Prisões e "Outras
Coisas"...
Por GRAÇA FRANCO
A mulher saiu cambaleante, amparada ao polícia. Um bonitão de olhos azuis
a fazer-se à câmara. A repórter, avisada à má fila pelo chefe da esquadra,
não escondia a emoção da prisão em directo. Avançou destemida e lançou a
única frase que aprendera no ofício:
- O que é que sente, neste momento?
E ela dura, sem lágrimas: - Aliviada! Muito aliviada!
- Não sente remorsos?
- Não.
- Porque é que fez isto? Ele maltratava-a, batia-lhe?
Ela, habituada a mentir, conseguiu uma última vez mascarar a verdade: -
Não (nunca em dezasseis anos o admitira e não ia ser agora, que o iria
fazer com ele " ainda quente" de morto!...). Como era hábito, repetiu
simplesmente que ele era "um bom homem"... O pior era "os copos"...
- Então porque é que o matou?
- Foi do medo. Ele ameaçava... que nos matava aos dois!
- Quais dois?
- Eu e o meu filho.
Nos olhos da repórter passou uma vaga emoção ("temos história!").
- Que idade tem o seu filho?
- Não sei. É uma "coisa", aqui na minha barriga. Foi do medo, do medo que
o matei primeiro.
A repórter já não ouvira o fim. Desiludida esboçara com o braço um gesto
de "corta" muito antes... Frente às câmaras balbuciava agora: "assistimos
à confissão desta mulher que parece em estado de choque, está (hesitação)
se-gu-ra-mente em estado de choque!
Depois recobrou a compostura e terminou:
"A 'assassina-confessa' que segue agora sob protecção policial para o
estabelecimento prisional de Tires... afirma estar grávida de poucas
semanas!"
A história começara uma semana antes. Quando a Otília, solidária nas
lágrimas, lhe atirara à queima-roupa nos vestiários da fábrica:
- Oh mulher! Não tens condições nem para ti, quanto mais para um filho.
Desfaz-te da "coisa" enquanto é tempo... Senão, ainda há desgraça!
Estou-te a avisar. Faço-o só porque sou tua amiga.
Sabia. Foi uma, foram duas, foram três as vezes que ouviu a Otília,
naquele mesmo dia, a aconselhá-la ao "desmancho" depois de a ter apanhado,
na casa de banho, a decifrar o teste de gravidez.
- Como é que isso foi, mulher? Não conheces os preservativos? Ainda lhe
atirou primeiro, desapiedada... mas depois intuiu a desgraça...
Ela envergonhada, forçada a explicar: - Foi ele, como sempre, "o monstro",
com "os copos", aos gritos de que eu não queria "porque já tinha feito
toda a pouca-vergonha com o Carlos"...
- Eu vou lá contigo! - voltava à carga a Otília - que até podes pagar a
prestações. O que não podes é deixar que "a coisa" avance e se saiba. Mais
depressa morres às mãos do teu homem do que ali. Não custa nada. Vais ver.
A parteira há mais de vinte anos que não faz outra coisa.
Depois, naquela noite acordou ensopada em suor, urinada de medo, não fosse
a "coisa" nascer de olhos azuis como o Carlos. Era morte certa. Ele que há
anos a sovava com aquela cismeira de que ela andava com o amigo. Ela a
jurar que nunca dormira com outro... e ele a bater-lhe por causa do ciúme
e da cisma... Se a "coisa " viesse de olhos azuis...matava-a. Isso era
certo. Havia de ser "sem dó nem piedade!"... como ele ameaçava sempre vai
para dezasseis anos: - "um dia mato-os aos dois. Sem dó nem piedade!".
Importa-me lá que ele seja polícia...
Ela sabia que era isso que a protegia, a cada arremetida à saída da tasca,
o outro mostrava-lhe a arma e garantia: - Cata-te vadio! Olha que eu não
preciso da tua mulher para nada. E se insultas a autoridade levo-te
direitinho para a Choça.
Afinal, cumprira-se, lá ia a caminho da Choça... com... ela!
Tinha casado com "o monstro" porque ele, à má fila, lhe fizera um filho.
Levou flor de laranjeira e tudo, para disfarçar, mas à primeira sova
desfez-se "a coisa". Esvaiu-se em sangue... e lágrimas, e nunca mais a
médica voltou a dar com " o coração do menino".
Depois nunca mais soube o que era isso. Não que usasse nada. Ou não
calhou, ou foi dos nervos, ou das sovas... nunca mais houve "coisa" outra
vez.
Só agora. Entrada nos trinta. E às tantas, podia ter olhos azuis como o
Carlos. Ou castanhos como os "do monstro". Fosse como fosse, havia de ser
dela. Podia trazê-la ao colo, e beijá-lo, e vesti-lo, e dar-lhe bolinhos,
no café, como a Otília fazia à Sara Vanessa. E vesti-la de fada, e pôr-lhe
flores na cabeça... Algemada ao Carlos deu com ela a pensar que, afinal,
só matara o monstro para a proteger. Não a ela, mas "à coisa" que trazia
na barriga. Aquela havia de ver a luz do dia. O juiz havia de entender que
só matara "o monstro" porque tinha que salvar "a coisa" de olhos azuis.
Ela tinha o direito de "a" ter como as outras mulheres... Era um direito
dela.
Havia de entender! Havia de conseguir explicar que também ela tinha
direito à vida. Tanto como ela... e ele matava-a, pela certa, se tivesse
sabido... bastava suspeitar que tinha olhos azuis!
Havia de poder provar que o seu homem "era bom... mas ruim como as cobras"
e, com o vinho, virava monstro. Todos os dias!
Havia de mostrar que, tal como ela dera uma "boa esposa"... a pontos de só
a Otília saber a verdade... também seria uma boa mãe!
A advogada não lhe deu grandes esperanças.
- Porque não se queixara antes à polícia?
- A quem, ao Carlos? Ia ela dizer ao Carlos que o marido a sovara durante
toda a vida porque cismara que "ela dormia com ele"? Então ele não o vira
nas tascas... a ameaçar "os dois"... num desvario?
- Porque não saíra antes de casa?
Com ele a ameaçar persegui-la de noite pela Vila, a chamar-lhe nomes, a
dizer que já casara prenhe do Carlos... a ameaçar matá-la?
- Porque não pedira ajuda à segurança social, ao apoio à vítima?
E ela a explicar-lhe como era "a vida das pessoas" e a advogada
ensimesmada em papéis... perdida em teorias... Ela a explicar-lhe da
"coisa"... e a outra, sem perceber, a insistir:
- "Oh mulher, veja lá se entende que o seu marido estava vivo e bem
vivo... e esse filho que você diz que existe não passa de um projecto que
ainda nem viu a luz do sol! E não era garantido que ele a matasse, nem que
o matasse. ...Entende? Você espetou uma faca no seu marido enquanto ele
dormia... e diz que foi para salvar uma "coisa" que nem sequer tem nome...
Percebe a diferença... mulher?
E ela a insistir: "existe sim, doutora, já tem coração!... e agora, com
ele morto, até já pode ter olhos azuis".
Lembrava-se da manif das mulheres de barriga ao léu "aqui mando eu!". Como
ela. Desta ninguém lhe roubava a sua coisa secreta.
- Olhe que não sei?! Se você tiver mesmo esse filho é bem possível que ele
cresça sem si. Aqui em Tires ele não pode ficar eternamente! Isto é uma
prisão. E você ainda pode ficar aqui uns bons anos. Assassínio
premeditado. Ele sem se defender... Durante o sono...
- Se não fosse eu matá-lo... matava-nos ele! Percebe, doutora?
- Pois... convença disso o Juiz!
Moral da história I:
É sempre possível encontrar a estória demagógica que nos interesse para
alimentar uma discussão sobre leis. Ai de nós se elas forem feitas com
base na casuística. Em cada estória há só uma ténue aparência de verdade!
Moral da história II :
Ontem foi o dia Europeu da vítima. Por cá, das quase oito mil queixas
entradas na APAV em 2003 a grande maioria foi de "mulheres adultas" que se
queixam da violência doméstica exercida por maridos ou companheiros. Como
titulava a Lusa: "a casa é o local mais perigoso do mundo!". Vale a pena
levar isto a sério. Porque muitas das causas do aborto clandestino estão
aqui neste reinado do medo: "da mãe que ia morrer de desgosto se
soubesse...", do "pai que a ia matar à pancada se adivinhasse..." do "
namorado que exige desembaraçar-se da "coisa" que lhe estraga os planos!"
e dela a morrer de "vergonha!" que lhe chamem tola. E nós, em vez de
combater este "medo que mata"... perdemo-nos em encontrar as maneiras de
lhe dar cobertura. Raio de sociedade de aparências... onde o politicamente
correcto defende, ao mesmo tempo e sem corar de vergonha, que se
criminalize o açoite e se despenalize o aborto.
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