Diário de Notícias - 16 Fev 04

Meninos vedetas no País do espectáculo
Fernando Martins   

O fenómeno é cíclico e conduz, com a inevitabilidade do fatalismo nacional, a um chorrilho de manifestações oportunistas e demagógicas.

Refiro-me ao trabalho infantil e ao aproveitamento mediático que se faz do tema, como se, mais importante do que resolver os problemas reais onde eles existem, fosse aproveitar o show-off e tentar dele obter dividendos a nível político ou de audiência.

As questões com raízes suficientemente profundas no corpo nacional, como esta, e tão complexas que vêm sendo postergadas, geração após geração, deviam promover um consenso suprapartidário, uma conjunção de vontades e de meios.

Infelizmente, porém, a realidade mostra que a palavra é mais fácil do que os actos, e que o seu arremesso continua a ser preferido à reflexão e à análise.

Aliás, de uma maneira geral, os media engrossam o coro dos que carpem em vez de investigar quem são os verdadeiros culpados (e beneficiários) do trabalho infantil, onde ele existe de facto.

É sempre mais fácil recorrer a umas quantas imagens de arquivo e legendá-las com outros tantos dados estatísticos (que são a moldura ideal da credibilidade), do que investigar as causas de um fenómeno que, na maior parte dos casos, não faz mais do que caracterizar estratos ocultos de uma sociedade sem estruturas de apoio social.

Agora, foi a vez de o Ministério do Trabalho e da Segurança Social divulgar dados de um estudo sobre as quase mil crianças que trabalham no mundo do espectáculo, na moda e na publicidade, e cuja actividade o novo Código do Trabalho promete condicionar.

Só que os elementos trazidos ao grande público com o impacto dos números que balizam o insucesso escolar, não espelham, certamente, a realidade de um fenómeno que tem por contornos principais não debilidades sociais e económicas, mas tão-somente mais uma manifestação da feira de vaidades em que passou a viver uma festejada franja da sociedade portuguesa.

Retiremos do grupo os meninos do circo, que representam uma realidade bem diferente: os que restam deste estudo não precisam de ser fotografados e filmados com câmaras ocultas, já que os holofotes fazem parte da forma como os exploram, com uma violência que pede meças à que possa exercer-se sobre os «clandestinos» da indústria do calçado.

Acresce que a plateia, que é o resto do todo nacional, aplaude as «gracinhas» das vedetas de palmo-e-meio, deixando para os intervalos as manifestações de indignação e de repúdio contra os empregadores dos meninos-operários.

E não resta nem tempo nem interesse para investigar se muitos dos outros empregos de crianças representam, tão-somente, uma forma expedita que muitos pais encontram de confiar os filhos a alguém em quem confiam mais do que na rua de todos os perigos - à falta das estruturas de apoio a uma instituição em grave crise que é a família.

Estamos tristemente a transformar-nos num país-espectáculo, em que a maioria reage apenas para disfarçar a indiferença.

[anterior]