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Público - 16 Fev 04
Não Concordo com Uma Maior Liberalização dos Despedimentos
O ministro do Trabalho e Segurança Social não concorda com algumas das
propostas feitas na convenção "Compromisso Portugal". desde logo em
matéria de liberalização total dos despedimentos, como foi proposto por
Fernando Ulrich, por ser contra a arbitrariedade de uma "salamização
etária". Nesta entrevista ao programa "Diga Lá Excelência" explica ainda
as alterações ao subsídio de desemprego e assume, em matéria de
descriminalização das mulheres que pratiquem a interrupção voluntária da
gravidez, que a proposta feita por Freitas do Amaral é um "excelente
contributo". Entrevista de José Manuel Fernandes e Graça Franco
(Renascença), fotos de Carlos Lopes
Trazia uma braçada de papéis debaixo do braço, pouco uso lhes deu. A maior
parte dos números citou-os de cor apesar de, como comentou ao sentar-se,
sobraçar uma "pasta do tamanho do País: tudo vem parar ao meu Ministério,
desde o idoso que escorrega num centro de dia até ao gigantismo do
orçamento da Segurança Social". Durante perto de uma hora respondeu a
apenas uma parte das perguntas que gostaríamos de lhe ter feito e ficou
quase prometido novo encontro. Numa altura em que estivesse sem a febre
que o apoquentava por, na véspera, ter ido tomar uma vacina antitetânica:
"mexo muito na terra ao fim-de-semana, lá em Estremoz", confessava ao
recordar o seu refúgio de "agricultor". Extractos da conversa com um homem
inquieto por ainda não saber o resultado do Benfica-Porto de ontem, para o
qual sonhava com um 3-0...
P. - Na convenção "Compromisso Portugal", Fernando Ulrich propôs a
liberalização dos despedimentos, contra indemnização, para a geração
nascida depois de 1974. Concorda com a ideia de uma maior liberalização
dos despedimentos?
R. - Não concordo. O país não pode ser um pronto-a-vestir em que se
ignora a nossa realidade cultural, a nossa idiossincrasia como povo. Não
somos os Estados Unidos e nem sequer está provado que o desenvolvimento
passe por tal liberalização. Não foi esse, por exemplo, o modelo da
Irlanda.
O país está cheio de "achistas", pessoas que "acham", que têm ideia
sobre tudo e sobre nada, mas a questão que se coloca é o nosso compromisso
como país. Para além disso há o constrangimento constitucional. Nas
questões laborais, há dois domínios de negociação: a negociação colectiva,
onde as partes têm instrumentos para defenderem os seus direitos, e a
negociação individual, onde de facto há uma parte fraca, que é o
trabalhador, e uma forte, que é o empregador. Julgo que Portugal não está
preparado para a incerteza, a instabilidade, que criaria tal medida.
P. - O seu Código do Trabalho foi acusado precisamente de introduzir
mais insegurança e instabilidade no mercado de trabalho...
R. - Há uma tendência para confundir neste debate precariedade com
flexibilidade. A precariedade é moral e eticamente inaceitável. A
flexibilidade é social e empresarialmente desejável.
P. - Qual é a diferença?
R. - A flexibilidade implica mudanças de funções, mudanças de
responsabilidades, mudanças mesmo dentro de um mesmo grupo. O que não faz
sentido é ter contratos rígidos em que ainda se define a profissão de
dactilógrafa ou de operador mecanográfico. Hoje um caixa de um banco, por
exemplo, é alguém que desempenha diferentes funções que só o enriquecem e
ajudam a melhorar as suas condições pela melhoria de condições da própria
empresa. Tem de haver alguma flexibilidade também para as empresas se
adaptarem aos ciclos económicos, alguma flexibilidade na contratação.
P. - Outra das ideias do "Compromisso Portugal" era liberalizar por
gerações. Considerar que há pessoas que cresceram num determinando
ambiente social e laboral e que no mercado de trabalho vão ter de crescer
em ambientes muito mais móveis, vão mudar mais vezes de empresa. Assim
poderia haver leis com aplicação diferente conforme a idade dos
trabalhadores, um caminho que não foi o seu na revisão do Código do
Trabalho. Poderia ter sido?
R. - Hoje é uma constatação objectiva que acabou o tempo de um único
emprego para toda a vida e isso implica que a flexibilidade é intrínseca
às próprias mudanças tecnológicas, organizacionais, etc. O Código de
Trabalho tem implícita essa distinção geracional, pois há muitos aspectos
da flexibilidade que tocam sobretudo os cidadãos mais novos, os que estão
mais disponíveis para os novos tipos de desafios. Não concordo é com a "salamização"
etária, porque é arbitrária.
P. - Está satisfeito com o Código do Trabalho ou ele foi muito
condicionado pelas regras constitucionais?
R. - Sou ministro do Trabalho e, como tal, tenho de respeitar a
Constituição. Pode-se discutir a Constituição? Claro que pode, mas não ao
meu nível.
P. - Mas tem opinião...
R. - Tenho. E entendo que na parte social e laboral a Constituição não
devia ser na primeira década do século XXI igual à da década de 60. Nesta
área a Constituição mudou muito menos do que noutras áreas, mas não
defendo a liberalização absoluta. O que defendo são os princípios
preconizados pelo pensamento social da Igreja. Por isso há que haver
sensatez, ponderação, não podemos dar, ao nível da relação bilateral, um
excesso de força a uma parte, tornando a outra parte muito vulnerável. Nem
o tecido empresarial está preparado, nem o desenvolvimento o exige, nem a
cultura da Europa ocidental o suporta.
P. - Vítor Constâncio, neste mesmo programa, disse que era necessário
trabalharmos mais e mais tempo, acolhermos melhor os imigrantes e termos
mais filhos. Disse mesmo que não o chocavam políticas de natalidade. O
Governo vai também por aí?
R. - Não acredito a 100 por cento em políticas públicas natalistas. Não
acredito que seja por aumentarmos o abono de família para algumas famílias
que nasçam mais filhos. As mudanças que fizemos foram por motivos de
equidade social.
P. - O resultado não será estimular a que os mais pobres tenham mais
filhos enquanto as classes médias com mais filhos continuam a ser
penalizadas fiscalmente?
R. - No domínio da segurança social deixámos o critério do rendimento
da família para o do rendimento per capita...
P. - O que ainda não sucedeu na política fiscal...
R. - Aí existe uma dedução à colecta e é indiscutível que a diferença
entre o segundo e o terceiro filho é quase inexistente. Aí deverá fazer-se
alguma coisa. Está previsto na Lei de Bases da Segurança Social a
consideração conjunta das prestações familiares como o abono de família e
a dedução à colecta de filhos.
P. - Há mais de ano e meio que manifestou essa intenção numa outra
entrevista e ainda não aconteceu nada...
R. - Não aconteceu porque primeiro tivemos de fazer a revisão do abono
de família. Por outro lado, o Governo entendeu, no domínio fiscal, começar
as reformas por outras áreas, como as do património, da sisa, do IRC.
Mas gostava de voltar ao tema da natalidade. Hoje a grande dificuldade
que as famílias sentem ao terem filhos é a de conciliarem os tempos
profissionais com os tempos de responsabilidades parentais. Ora aqui pode
haver políticas públicas.
P. - Quais?
R. - No Código do Trabalho, por exemplo, alargaram-se uma série de
licenças depois do nascimento dos filhos. Considerou-se também a
possibilidade de passar a trabalhar a tempo parcial sem prejuízo na folha
de descontos para a segurança social - como se estivesse a trabalhar a
tempo inteiro -, algo que está agora a ser regulamentado.
P. - E o alargamento da licença de maternidade, a que era favorável?
R. - Era, sou e espero poder concretizá-la. Tenho esse sonho e a
políticatambém é feita de utopias.
P. - Mais duas semanas?
R. - Duas a três semanas.
P. - Já?
R. - No próximo ano.
P. - A CIP manifestou-se contra.
R. - Está no seu direito. Quanto a mim, se fosse possível, até
defenderia uma licença de maternidade de um ano, mas também sei que se a
licença de maternidade passasse para um ano ninguém contrataria jovens
futuras mães. Há aqui um ponto de equilíbrio entre o ideal e a realidade
económica.
Mas há outro ponto sobre o qual gostava de falar e que é novidade: a
introdução de alguma liberdade de escolha na licença de maternidade.
Actualmente a licença é de quatro meses, paga a 100 por cento - 100 por
cento do salário bruto, pagos sem descontos nem impostos. Isso significa
que a mãe, em termos líquidos, até recebe mais, pois esses descontos
correspondem, em média, a 30 por cento do salário bruto.
Aquilo em que estou a pensar é em dar à mãe a possibilidade de ter
quatro meses de licença a 100 por cento ou cinco meses a 80 por cento. No
fundo é, com o mesmo dinheiro, dar mais liberdade de escolha às pessoas.
P. - E as duas semanas...
R. - ...serão cumulativas. Agora esta possibilidade de escolha julgo
que será possível realizar este ano. Quase não há acréscimo de custos para
o Estado. As duas semanas suplementares terão acréscimo de custos, virão
além desta possibilidade de escolha, mas implica que haja equilíbrio nas
contas. É uma medida que eu desejo tomar mas que ainda não sei se vou
poder tomar.
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