Expresso Online - 11 Fev 04

Política de «um só filho» lançada em 1979 na China
Filhos únicos na China são «irresponsáveis»

 

EPA

A primeira geração de filhos únicos na China já está a começar a casar e a iniciar uma carreira profissional, mas são notórias as falhas na sua personalidade, na análise de uma investigadora chinesa que têm acompanhado o crescimento dos chamados«pequenos imperadores». Wang Jie, socióloga, descreve estes filhos únicos como mais «irresponsáveis» que os das gerações anteriores, «menos tolerantes, egocêntricos, sem espírito de poupança» e «demasiado dependentes dos pais».

Habituados desde pequenos a serem tratados como os «tesouros» da casa - agora que começaram a casar-se - são menos tolerantes na resolução dos problemas conjugais e a lida da casa é para eles um fardo mais pesado do que foi para os pais.

Em estudos efectuados junto de casais de filhos únicos, Wang concluiu que metade admitia discutir por questões pequenas, em regra disputas sobre divisão de tarefas domésticas, enquanto 80 por cento não comem em casa.

Um terço destes novos casais admitiu continuar a lavar a roupa suja em casa dos pais. «Ao nível da vida prática, esta geração de filhos únicos é muito dependente dos pais», conclui Wang, 47 anos, investigadora da Academia de Ciências Sociais de Tianjin, cidade portuária vizinha de Pequim, em entrevista à Agência Lusa.

A socióloga culpa, em grande medida, os pais por estarem «a criar uma geração preguiçosa», pouco preparada para a realidade do mercado competitivo da China de hoje, já longe da economia planificada, onde o Estado garantia emprego para toda a vida.

Os pais dos «pequenos imperadores», como são denominados os filhos únicos na China, planeiam minuciosamente a vida dos filhos, roubando-lhes tempo para brincar e capacidade de iniciativa e, por outro lado, mimam-nos com tudo o que eles querem: roupas de marca, telemóveis ou computadores.

«Esta geração é o futuro do país. Se dão aos filhos tudo o que eles querem, tudo se torna demasiado simples. Tornam-se excessivamente descontraídos. Faltou-lhes tempo e espaço para desenvolverem um espírito batalhador, e isso reflecte-se quando terminam os estudos e começam a trabalhar», refere.

Muitos pais sobrecarregam a agenda dos filhos com explicações de inglês, aulas de piano e actividades desportivas, «como forma de compensação» daquilo a que eles e os avôs não tiveram acesso.

A política de «um só filho» foi lançada em 1979, um ano depois do início das Políticas de Reforma e Abertura que impulsionaram uma autêntica «revolução capitalista» nos últimos vinte anos, após quase três décadas de restrição económica e social na China liderada por Mao Zedong.

Agora que «enriquecer é glorioso» e o que conta são as regras da concorrência, a socióloga diz que «as esperanças de várias gerações são colocadas nos ombros dos filhos únicos»

O governo chinês lançou a política de um «só filho», mas não concebeu instrumentos especiais para o ensino e a sociedade em geral compensarem os solitários «pequenos imperadores» que crescem em autênticas «gaiolas douradas». «Os pais, as escolas e as associações locais devem ter consciência de que é preciso criar ligações entre os filhos únicos. Devem organizar actividades para os juntar, de modo a que as crianças não se sintam tão solitárias, aprendam a pensar mais nos outros e não sejam tão narcisistas», defende Wang Jie.

Um dos efeitos secundários da política do filho único mais debatidos na sociedade chinesa é o facto de esta estar a ajudar a criar um envelhecimento precoce da população.

O modelo de famílias «4+2+1» (avós, casal de filhos únicos, e um só filho), que irá predominar no futuro, constitui uma sobrecarga para a segurança social do país e para os filhos únicos que têm de repartir atenção, e muitas vezes apoio financeiro, pelos pais.

A política, suscitada por motivos económicos, para impedir uma explosão demográfica, está a ser travada pela realidade do país, ainda em vias de desenvolvimento e cuja rede de segurança social praticamente não cobre os agricultores (que são 800 milhões dos 1.300 milhões de chineses).

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