A primeira geração de filhos únicos na China já
está a começar a casar e a iniciar uma carreira profissional, mas
são notórias as falhas na sua personalidade, na análise de uma
investigadora chinesa que têm acompanhado o crescimento dos chamados«pequenos
imperadores». Wang Jie, socióloga, descreve estes filhos únicos
como mais «irresponsáveis» que os das gerações anteriores,
«menos tolerantes, egocêntricos, sem espírito de poupança» e
«demasiado dependentes dos pais».
Habituados desde pequenos a serem tratados como
os «tesouros» da casa - agora que começaram a casar-se - são
menos tolerantes na resolução dos problemas conjugais e a lida da
casa é para eles um fardo mais pesado do que foi para os pais.
Em estudos efectuados junto de casais de filhos
únicos, Wang concluiu que metade admitia discutir por questões
pequenas, em regra disputas sobre divisão de tarefas domésticas,
enquanto 80 por cento não comem em casa.
Um terço destes novos casais admitiu continuar a
lavar a roupa suja em casa dos pais. «Ao nível da vida prática,
esta geração de filhos únicos é muito dependente dos pais»,
conclui Wang, 47 anos, investigadora da Academia de Ciências Sociais
de Tianjin, cidade portuária vizinha de Pequim, em entrevista à
Agência Lusa.
A socióloga culpa, em grande medida, os pais por
estarem «a criar uma geração preguiçosa», pouco preparada
para a realidade do mercado competitivo da China de hoje, já longe
da economia planificada, onde o Estado garantia emprego para toda a
vida.
Os pais dos «pequenos imperadores», como
são denominados os filhos únicos na China, planeiam minuciosamente a
vida dos filhos, roubando-lhes tempo para brincar e capacidade de
iniciativa e, por outro lado, mimam-nos com tudo o que eles querem:
roupas de marca, telemóveis ou computadores.
«Esta geração é o futuro do país. Se dão aos
filhos tudo o que eles querem, tudo se torna demasiado simples.
Tornam-se excessivamente descontraídos. Faltou-lhes tempo e espaço
para desenvolverem um espírito batalhador, e isso reflecte-se quando
terminam os estudos e começam a trabalhar», refere.
Muitos pais sobrecarregam a agenda dos filhos com
explicações de inglês, aulas de piano e actividades desportivas,
«como forma de compensação» daquilo a que eles e os avôs não
tiveram acesso.
A política de «um só filho» foi lançada em
1979, um ano depois do início das Políticas de Reforma e Abertura
que impulsionaram uma autêntica «revolução capitalista» nos
últimos vinte anos, após quase três décadas de restrição económica e
social na China liderada por Mao Zedong.
Agora que «enriquecer é glorioso» e o que
conta são as regras da concorrência, a socióloga diz que «as
esperanças de várias gerações são colocadas nos ombros dos filhos
únicos»
O governo chinês lançou a política de um «só
filho», mas não concebeu instrumentos especiais para o ensino e a
sociedade em geral compensarem os solitários «pequenos
imperadores» que crescem em autênticas «gaiolas douradas».
«Os pais, as escolas e as associações locais devem ter
consciência de que é preciso criar ligações entre os filhos únicos.
Devem organizar actividades para os juntar, de modo a que as
crianças não se sintam tão solitárias, aprendam a pensar mais nos
outros e não sejam tão narcisistas», defende Wang Jie.
Um dos efeitos secundários da política do filho
único mais debatidos na sociedade chinesa é o facto de esta estar a
ajudar a criar um envelhecimento precoce da população.
O modelo de famílias «4+2+1» (avós, casal de
filhos únicos, e um só filho), que irá predominar no futuro,
constitui uma sobrecarga para a segurança social do país e para os
filhos únicos que têm de repartir atenção, e muitas vezes apoio
financeiro, pelos pais.
A política, suscitada por motivos económicos,
para impedir uma explosão demográfica, está a ser travada pela
realidade do país, ainda em vias de desenvolvimento e cuja rede de
segurança social praticamente não cobre os agricultores (que são 800
milhões dos 1.300 milhões de chineses).