Público - 11 Fev 04

Ser Docente e o Dilema da Escola

Na semana passada, o promotor da criação de uma ordem dos professores, defendendo esta ideia, afirmou que é professor quem tem vocação para a docência. Em resposta, um destacado dirigente sindical afirmou que não é professor quem tem vocação para tal, mas sim quem passou pelos concursos e está no quadro de uma escola.

Duas visões da profissão; duas visões da escola e, atrevo-me a dizê-lo, duas visões da vida que representam o combate actualmente no mundo da educação.

Por um lado, os defensores da escola livre e intencional, responsável e responsabilizada pelos seus sucessos e seus fracassos.

Por outro lado, os defensores da escola parametrizada e burocrática, mera cumpridora de directrizes, que não é premiada pelos seus sucessos e insusceptível de ser responsabilizada pelos seus fracassos.

Não existem soluções ideais para o problema do recrutamento de docentes para a escola do Estado, mas é salutar que nos questionemos sobre a bondade da colocação dos docentes, por meio de um concurso em que os candidatos são seriados por média académica e anos de serviço.

Não existem soluções ideais para o problema da segregação social, mas é salutar que nos questionemos sobre a bondade de em Portugal só terem liberdade de escolha de escola os filhos de pais ricos ou que conhecem alguém no conselho executivo.

Exige-se que a escola seja um lugar de inovação e crescimento; um espaço de socialização e de promoção social. Existe alguma relação entre algum destes objectivos e a média de curso ou os anos de serviço? E com a obrigação de frequentar a escola da área de residência? Parece bem que não.

Responder à certeza do sonho (professor é quem tem vocação) com a crueza do materialismo dialéctico (professor é quem passou por um concurso e está no quadro) é condenar ao fracasso toda uma geração que irá frequentar esta escola realista e crua, da luta (de classes?) e da castração da excelência (que por estar desempregada não existe e tem a ousadia de não nascer por concurso).

Portugal está numa fase de viragem; estamos "no fim de um ciclo" (Azevedo, 2003). Podemos continuar a patinar no lamaçal ou dar um salto em frente e propiciar às nossas crianças e jovens uma escola capaz de fazer surgir os "descobridores" que, queremos crer, existem neste pequeno rectângulo na ponta da Europa. A escolha é nossa.

Apoiemos o sonho, a vocação, o esforço. Não tem razão a consultora contratada pelo Governo quando afirma que a culpa da falta de produtividade do país é da economia paralela. O problema está no Estado que não acredita nos cidadãos.

Rodrigo Queiroz e Melo
director executivo
AEEP - Associação dos Estabelecimento de Ensino Particulares e Cooperativos

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