Diário de Notícias - 9 Fev 04

Vamos fazer Portugal
Jorge Ferreira   

Todos nós nos zangamos com a pátria de vez em quando. Em conjuntura certamente grave, Miguel Torga chegou a escrever até que ela terminava quando chegávamos ao Algarve, como escreveu no seu Portugal. O momento actual da vida portuguesa é especialmente frustrante e desmotivador. O Estado, longe de ajudar à instauração de uma nova era e à recuperação política, financeira e anímica do País, parece até comprazer-se em estimular metodicamente o cepticismo nacional. O País vive uma crise profunda. Não é a primeira e não será a última, mas é certamente a pior, pela simples razão de que é a que estamos a viver no nosso presente. Perante o desgaste e exemplos da política, a desconfiança nas instituições, a ruína da economia e a sangria orçamental, os cidadãos perguntam-se «como dar a volta».

O empresário José Manuel de Melo deu a sua solução. Fazer a Ibéria, dividir Portugal em três ou quatro regiões e entregarmo-nos, quais inimputáveis, à tutoria de Madrid. De imediato, Vasco Pulido Valente alertou para a pequena contrariedade de lhe parecer que a Espanha não está para nos aturar e de só por essa impaciência administrativa a anexação ser uma inviabilidade.

Compreendemos bem as razões do empresário. Assinar manifestos a recomendar aos políticos a defesa de centros de decisão nacionais e depois ver os assinantes vender os seus centros de decisão a empresas espanholas deve ser duro. Imagino José Manuel de Melo a confundir esses exemplos individuais de falecimento da vontade nacional com uma generalizada desmobilização do ânimo do povo. Sabemos até como no passado o empresário foi prejudicado em benefício de outros que enganaram o Estado ante a passividade e silêncio do próprio Estado, beneficiando a posteriori empresas espanholas. O que nos parece excessivo é transformar um estado de alma num projecto político.

A primeira coisa de que Portugal precisa é de liderança. Não é novo as elites defenderem a entrega das chaves. A história está cheia de exemplos, por interesse ou por desânimo e descrença no futuro. Também não por acaso, Portugal é um Estado independente 800 anos após D. Afonso Henriques se zangar com a sr.ª D. Teresa, sua mãe.

Por ironia, uma ajuda à nossa auto-estima e viabilidade de Portugal veio de um espanhol, o presidente da Federação Espanhola de Futebol, Angel Vilar. Disse ele que o seu grande erro na candidatura espanhola ao Euro 2004 foi não aceitar a proposta de Gilberto Madaíl, no sentido de uma organização conjunta. Disse o dirigente espanhol que teve a arrogância de pensar que a vitória da candidatura espanhola era favas contadas, já que estava certo da solidariedade dos seus inúmeros e influentes amigos da UEFA. O que hoje reconhece ter constituído uma arrogância.

Não sei se Angel Vilar leu as entrevistas de José Manuel de Melo e de Vasco Pulido Valente. Também não interessa. O que interessa é o exemplo que dá, de como é possível Portugal ser capaz, eficiente e ganhador. Não, obviamente, em tudo. Mas no que é suficiente para derrotar o desânimo. No que basta para sermos iguais ou melhores que os outros e, já agora, sem um Governo Autonómico, mas com uma soberania nacional.

Parece-me definitivamente melhor ideia fazer Portugal do que fazer a Ibéria.

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