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Público - 8 Fev 04
"Os Estudantes Habituaram-se a Que Seja Socialmente Aceitável Não
Gostar e Ser Mau a Matemática"
Por ISABEL LEIRIA (TEXTO), Bruno Castanheira (fotos)
É necessário saber quais as práticas, programas e orientações que têm
sucesso e as que não têm, mas a falta de estabilidade educativa tem
impedido a sua avaliação. A criação de mais exames nacionais ajudaria
também a perceber se as escolas estão a ensinar bem ou mal. E as
universidades devem ter um papel na recuperação dos alunos com
dificuldades. São algumas das medidas defendidas por Nuno Crato, professor
do Instituto Superior de Economia e Gestão, membro da direcção da
Sociedade Portuguesa de Matemática e da Comissão para a Promoção do Ensino
da Matemática.
PÚBLICO - Os resultados a Matemática são sistematicamente fracos. Os
alunos portugueses não têm mesmo grande aptidão para a disciplina ou o
ensino é que é mau?
Nuno Crato - Não se pode culpar os alunos. Se eles não aprendem é
porque nós, sociedade em geral e não só os professores, não estamos a
funcionar como devíamos.
P. - E onde é que se está a falhar?
R. - Em tanta coisa, que é difícil dizer. Há falhas que são mais ou
menos evidentes, que estão assinaladas e que podem ser supridas. Uma
delas, que é revelada pela comparação dos resultados obtidos no 1º e no 2º
ciclo, é o grande desnível existente entre as duas etapas de estudo.
Esse desnível existe porque há uma mudança muito brusca na passagem
entre ciclos. Os alunos passam de um regime em que têm um professor para
outro com vários docentes; nas matérias, as mudanças são também muito
bruscas. Seria conveniente que a passagem fosse um bocado mais suave e há
mudanças que se podem fazer , nomeadamente nas matérias e na docência.
P. - Aumentando o número de professores do 1º ciclo e recorrendo a
docentes mais vocacionados para a Matemática?
R. - No 2º ciclo, devia haver uma ligação maior entre o professor e o
aluno, o que não se consegue com tantos docentes por estudante como sucede
neste momento.
P. - Mas mesmo no 1º ciclo os resultados nas provas de aferição a
Matemática revelam grandes dificuldades nalgumas áreas e as classificações
são globalmente fracas.
R. - São fracas a Matemática como estou convencido que serão fracas em
quase tudo. As pessoas falam da Matemática porque é mais visível. Haverá
falhas em Matemática, História, Português, Geografia... Simplesmente, a
Matemática é um barómetro do estado do ensino mais rigoroso que outros,
porque revela melhor as deficiências do ensino do que as outras
disciplinas. Isso explica-se por duas ou três características. Primeiro, é
mais cumulativa; é muito difícil recuperar-se sem ter as bases: se o aluno
não sabe somar fracções, a seguir vai ter mais dificuldade com os
polinómios. Segunda agravante: em Matemática, as respostas estão
habitualmente certas ou erradas, pelo que é muito fácil as notas serem
muito boas ou muito más.
P. - Acha que há uma excessiva permissividade por parte dos professores
em deixar passar alunos que não têm essas bases?
R. - Um problema fundamental é que não existem exames nacionais. A
única altura em que são feitos é no 12º ano. O ministro instituiu-os no 9º
ano [começam no próximo ano lectivo] e acho muito bem. Até agora, cada
escola esteve entregue à sua sorte e é muito difícil para os
estabelecimentos de ensino balizarem-se uns pelos outros. É complicado
saber o que cada um está a fazer bem ou mal se não existe nenhum exame
nacional.
P. - Defende a introdução de exames nacionais noutro níveis de ensino?
R. -É necessário existirem alguns marcos de aferição individualizados,
mas que não são as actuais provas de aferição. Estas, citando a professora
Ana Benavente [ex-secretária de Estado da Educação], que as promoveu, não
servem para avaliar os alunos, não servem para avaliar as escolas, não
servem para avaliar os professores. Ou seja, não servem para quase nada.
As actuais provas de aferição não dizem o que cada aluno sabe. É preciso
algo mais do que exames do 9º ano. Será no 6º, será no 4º, não sei, mas
estou convencido que é preciso criar algo mais.
P. - Em relação às provas de aferição, tem a noção de que a sua
utilidade para as escolas tem sido inexistente?
R. - Essencialmente sim, porque as pessoas pegam nas provas e apenas
podem dizer "sim, de facto a nossa escola não está muito bem". E agora? Há
muitos professores conscienciosos que aproveitam esses resultados. Mas há
sobretudo uma falta de efeito da avaliação sobre os alunos e sobre a
escola, que é muito difícil ultrapassar.
P. - Havendo indicadores que permitem fazer um diagnóstico
relativamente rigoroso, por que razão o problema do ensino da Matemática
nunca foi atacado de forma sistemática e eficaz?
R. - Não creio que seja ainda possível fazer esse diagnóstico. Apenas
podem ser apontadas algumas causas do problema. Os programas mudaram
demasiadas vezes sem avaliação do que foi feito. Aquilo que é necessário,
que é saber quais as práticas, programas e orientações que têm sucesso,
quais os que não têm, isso não pode ser estudado ainda em Portugal. Não
tem havido uma estabilidade educativa que permita fazer essa análise.
P. - Mas tem algumas ideias sobre o que devia mudar? Por exemplo, a
Matemática devia ter mais peso nos currículos?
R. - Sim, isso é importante. Neste momento, por exemplo, não está
estipulado no 1º ciclo o número de horas que deve ser dado. Depende do
professor.
P. - E os manuais escolares, que importância têm na qualidade do
ensino?
R. - Têm muita e há muitas escolas onde são um instrumento decisivo.
Com tanta instabilidade nos programas, há professores que conhecem
sobretudo os manuais e que se guiam por eles. Ora, neste momento, não
existe nenhum sistema de avaliação que garanta a sua qualidade científica.
Há uma lei de 1992, que nunca foi cumprida, que diz que os manuais
devem ser avaliados, mas que é tão complicada e tem coisas tão absurdas
que nunca foi posta em prática. Defendo que o ministério, ou outras
entidades que disso fossem encarregues, faça uma avaliação dos manuais
existentes. Não seria vinculativa, mas indicaria aos professores a opinião
de alguns pessoas idóneas sobre os livros escolares.
P. - Qual é a apreciação que faz sobre a qualidade dos manuais de
Matemática em vigor?
R. - Não conheço todos. Conheço alguns e acho que são muito repetitivos
e muito rotineiros.
P. - Este ano houve uma diminuição de 13,5 por cento da procura dos
cursos de ciências como primeira opção, quando a redução global de
candidatos foi de dez por cento. A falta de candidatos é já preocupante?
R. - Imenso. Há a ideia de que as ciências e a Matemática são mais
difíceis. Os estudantes habituaram-se a que seja socialmente aceitável não
gostar e ser mau a Matemática. Se se ouvir na televisão: "Eu de Matemática
não sei nada, percebo perfeitamente que os estudantes tenham maus
resultados", isso passa habitualmente sem condenação. Imagine o que seria
se essas pessoas dissessem na televisão: "Português, que horror! Eu não
sei falar bem português, eu não sei escrever português..."
Mas acho que o discurso tem evoluído um bocadinho.
P. - O que é que se pode fazer para reconciliar as pessoas com estas
disciplinas?
R. - Primeiro, é preciso ensiná-las. Todo o medo em relação à
Matemática e às ciências é derivado do seu desconhecimento e do facto de
as pessoas não terem conseguido ter uma formação razoável que as fizesse
gostar dessas disciplinas, pois elas são tão bonitas como o português ou
as artes plásticas.
Acho que as universidades estão também numa encruzilhada: por um lado
têm menos candidatos e, por outro, os candidatos que têm aparecem com pior
formação. Se não os aceitam ficam vazias e vão à falência. Acho que deviam
reagir a isto de uma maneira positiva, fazendo cadeiras preparatórias, com
o objectivo de acompanhar alunos que vêm mal preparados. As universidades
têm-se recusado a fazê-lo, quando esta é uma solução óbvia e que permite
evitar o desperdício de recursos.
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