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Correio do Vouga - 2 de Fevereiro
Voluntariado Social
Movimentos cívicos e construção da sociedade
Georgino Rocha
"A sociedade tende a estagnar na ordem estabelecida. Sem o ar fresco dos
movimentos cívicos, perde-se a novidade que surpreende os mais atentos ao
evoluir dos acontecimentos e tardam a surgir respostas para os desafios
sociais que vão emergindo declara, em conversa amena, um autarca
recém-empossado no pelouro da cultura após o encontro sobre família e
poder local efectuado recentemente no Centro Universitário Fé e Cultura.
Este encontro foi promovido pela Associação Portuguesa de Famílias
Numerosas e, a par de reflexões cheias de riqueza doutrinal, apresenta uma
série de medidas concretas a tomar integradas num plano global de apoio à
família, a nível local. Suscita uma adesão cordial empenhada dos
participantes.
Está a ver o que se refere às tarifas da água e da electricidade?! Seria
tão fácil levá-las à prática, mas como posso avançar sem o aval dos
responsáveis por essa área, sempre preocupados com a rentabilidade do
sistema?! O mesmo poderia dizer em relação à despenalização fiscal fazendo
uma tributação de acordo com o rendimento por cada pessoa e ao apoio às
acções do voluntariado que visam as famílias fragilizadas.
Julgo pertinente este desabafo-reflexão de quem sente as exigências
sociais do poder autárquico e, sem esquecer a relativa autonomia de cada
pelouro, tenho em conta o funcionamento da Câmara como equipa ao serviço
do bem comum e, por isso, como um todo harmónico garantido pelo
Presidente. Sei também que há condicionamentos de vária ordem como a
relação com o poder central, com os outros municípios, sobretudo os que
têm interesses comuns, com organismos e instituições com finalidades
diversas, mas sediadas na área administrada pela Câmara. O exercício do
poder local está enquadrado num conjunto legal mais vasto e obedece a
regras definidas, tendo sempre como horizonte o melhor serviço ao bem
estar integral dos munícipes. É neste contexto que reconheço especial
importância ao papel dos movimentos cívicos na sociedade democrática e
pluralista, considerados como ar fresco que oxigena as rotinas da ordem
consentida e liberta o espírito para enfrentar os desafios decorrentes.
Os movimentos cívicos são constituídos por cidadãos atentos às situações e
conscientes da necessidade de intervenção social em benefício de causas
que julgam pertinentes. É o caso das famílias numerosas, dos pais e
responsáveis de educação que desejam poder optar por um projecto
educativo, da defesa da vida, das pessoas com deficiências graves, dos
imigrantes discriminados, da criança abandonada ou do menor em risco, da
ajuda à mulher grávida ou da mãe violentada, do desenvolvimento pessoal e
comunitário, da luta contra a lepra ou contra o cancro, dos deslocados e
mutilados da guerra, da cáritas, das conferências vicentinas, dos médicos
sem fronteiras, da cruz vermelha, da protecção do consumidor ou do
contribuinte, da amnistia internacional, da protecção dos animais, do
equilíbrio da natureza, da cooperação missionária, da solidariedade rural,
do apoio à vítima, da 3ª Idade e de tantos outros.
Alguns movimentos duram o tempo de uma campanha como por exemplo a da
regionalização ou a da alteração da lei abortista; outros tendem a
constituir-se em associações reconhecidas oficialmente e dotadas de
personalidade jurídica; outros ainda funcionam de modo quase intermitente,
vivendo simplesmente da espontaneidade dos seus membros estimulados pela
ocorrência de grandes catástrofes ou calamidades.
A construção da sociedade pluralista conta sempre com esta espécie de
voluntariado solícito e vigilante. Dispõe assim de um meio poderoso que
está chamado a ser cada vez mais parceiro de qualidade. Não apenas para
atender às primeiras necessidades ou prestar os socorros iniciais, mas
para abrir caminhos de humanização mais plena, promover as pessoas
ajudadas, debelar e erradicar situações injustas, fazer propostas
alternativas, mostrar o rosto confiante da esperança que garante haver um
futuro feliz para todos a iniciar já, aqui e agora. Sem mais demoras. Com
pedagogia libertadora.
A função principal dos movimentos cívicos é a de cooperação com os
organismos da sociedade e seus responsáveis, designadamente quando
escolhidos livremente pelo povo ou quando investidos em profissões de
clara utilidade pública. É sobre estes que recai, de modo especial, a
nobre missão de criar condições favoráveis à intervenção de todos os
cidadãos na construção da sociedade.
Deputados e governantes, diplomatas e políticos de carreira, homens e
mulheres da ciência e educação, da investigação e tecnologia, agentes da
comunicação social e criadores de arte, juristas e empresários, operários
e camponeses, militares e funcionários, todos em conjunto e cada um a seu
modo, ajudam a erguer esta sociedade que se espelha no nível de vida do
povo humilde e na criação das condições que o dignificam. Todos juntos e
cada um de per si mostram o rosto do serviço público regido pela ética do
bem comum, sobretudo dos mais desfavorecidos. Todos juntos e cada um por
sua vez expressam e fomentam os valores de uma sociedade participada e
solidária, aberta a todas as dimensões do ser humano e potenciadora da sua
realização.
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