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Público - 9 de Fevereiro
Guerra na Aula
Por NUNO PACHECO
"Professores e alunos vivem em permanente estado de guerra". Foi assim
que, esta semana, uma reportagem televisiva (na TVI) descrevia o estado
a que chegou uma escola da periferia lisboeta, onde professores e
empregados já nem ligam aos insultos porque estão mais preocupados em
salvar a pele: a directora, por exemplo, foi agredida na cara com um
tijolo, por um aluno, e ficou com a boca ferida e alguns dentes
partidos.
Há dias, o secretário de Estado da Educação, João Praia, lamentava que a
formação dos professores não incluísse temas como a socialização ou
integração de grupos para os ajudar nestes casos, que "não se resolvem
com medidas repressivas" nem com castigos, mas sim pela "integração".
Espantoso: enquanto uns clamam por mais polícia, pensando que com fardas
e bastões à vista resolverão o problema da indisciplina nas aulas,
outros vêm com a eterna mezinha dos colóquios e da formação. Estão ambos
errados. Não é possível manter escolas como as actuais, sobretudo nas
zonas mais degradadas, sem responsabilizar pais e alunos em tudo o que a
elas diga respeito. E isso exige, obviamente, que se instale e imponha o
respeito mútuo como regra de convivência entre todos. E se penalize, sem
receio de susceptibilidades, quem furar essa regra. Não é por acaso que
nas escolas do básico e do pré-escolar onde se adoptam os velhíssimos
mas ainda eficazes métodos Freinet, as crianças se deixam envolver e
interessar pela vida quotidiana da escola, porque elas mesmas são
envolvidas nas decisões, na escolha das matérias a estudar, na arrumação
e na limpeza das salas de aula. Não é um problema dos outros, é uma
coisa delas, e as crianças sabem amar e respeitar tudo o que as cativa.
Se a isso foram incentivadas, com rigor e sem paternalismos.
Depois, há ainda outro problema, igualmente grave. Há quarenta anos, os
pais levavam os meninos à escola por um braço e diziam aos professores:
'não poupem este malandrete!'. E os professores punham e dispunham da
criatura em questão, ora louvando-a ora espancando-a sem piedade. Hoje,
inverteram-se as posições. Se um professor levanta a voz para um aluno,
mesmo quando este é indisciplinado e ostensivamente mal educado, os pais
vão à escola e desancam o professor. Com insultos ou até agressões: "Uma
das empregadas voltou a bater no meu filho e eu tive que lhe bater
também", dizia uma mãe, desafiadora, aos microfones da TVI.
Nalgumas escolas talvez já seja tarde de mais para pôr um freio no
estado de degradação a que se chegou. Mas é sempre possível começar por
algum lado. E se as tais "medidas repressivas" que tanto parecem
assustar o secretário de Estado forem simplesmente medidas educativas
(quem parte paga, quem insulta ou agride é punido), delas não virá mal
ao mundo.
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