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Público - 23 de Fevereiro
Figurões e Figurantes
Por SANTANA CASTILHO*
O ambiente é de pré-campanha. No que ao ensino respeita, os primeiros
sinais são desoladores. E não me surpreende que assim seja porque, para
além de não haver uma única ideia que valha a pena, os figurões são os
mesmos. Do lado do PS a mensagem é clara: continuarão. Do lado do PSD não
sobram dúvidas: suspenderão. E o ciclo vai fechar-se com os figurantes a
votarem, uns no PS, outros no PSD.
O sistema está moribundo. Bem podem chover manifestos concitando milhares
de assinaturas. A realidade é que nos domina um torpor que impede a visão
dos factos. O ritual que nos sobra, o do voto, está dramaticamente
inquinado: é que à desgraça de que o "Manifesto para a Educação da
República" fala fomos conduzidos, alternadamente, ora pelo PSD, ora pelo
PS.
Sim ou não? Lembram-se?
Pois é, de novo, um dos dois que será escolhido. Um dos dois, que
continuam a oferecer a sufrágio os mesmos programas anquilosados e
idênticas teorias caducas, interpretadas pelos mesmíssimos comissários
políticos. Tome-se por "corpus" de investigação a produção legislativa, as
emanações teóricas expressas em teses e estudos e os modismos pedagógicos
impostos às escolas nas últimas décadas e verificaremos que os autores são
sempre os mesmos, directamente ou por interpostos colaboradores. Que
fazer?
O problema não está na existência de maus professores. Está na
inexistência de motivos para que sejam bons. O modelo de gestão seguido é
burocrático e apenas conseguiu aumentar taxas de escolarização: 70% no
pré-escolar, 90% no básico e 60% no secundário. É pouco para 28 anos de
regime e foi conseguido a custos reconhecidamente exagerados. É inadequado
para o contexto global em que entrámos.
O chamado modelo de mercado não me aquece a alma, não está isento de
muitos inconvenientes nem é panaceia para todos os males. Mas é o mais
adequado ao contexto em que vivemos. O ensino é hoje um bem económico a
gerir segundo as mesmas regras de análise custo-benefício que se aplicam
para avaliar a prestação de qualquer outro serviço que o cidadão pague.
Não é possível continuar a aumentar o esforço civil de financiamento do
ensino sem um retorno evidenciado por resultados. É imperioso criar
condições para que cresça o financiamento privado, assente no primado da
interacção entre os utentes e os prestadores do serviço.
Segundo dados da OCDE, relativos a 2000, Portugal é o país da União
Europeia com um gasto privado em ensino mais exíguo: 17 vezes menos que a
Dinamarca, 15 vezes menos que a Alemanha, por exemplo. Enquanto os
dinheiros públicos rondam os 6% do PIB, os privados ficam-se por uns
escassos 0,1%. E tenhamos presente, porque é uma realidade indesmentível,
ainda que constantemente escamoteada, que o custo de um aluno do sistema
público é, em média, quase o triplo do de um aluno do sistema privado.
Um indicador relevante para podermos diferenciar simples estratégias de
crescimento de desejáveis estratégias de desenvolvimento radica no sobe e
desce das percentagens do orçamento alocadas às despesas de funcionamento
ou ao investimento. Num momento em que o corte das despesas está na ordem
do dia, gostaria de ouvir os candidatos a primeiro-ministro
pronunciarem-se sobre o que pensam fazer para reduzir os quase 90% do
orçamento que são consumidos por despesas de funcionamento, acção sem a
qual nenhum ministro nem nenhum governo farão mais do que gestão corrente.
Também matéria recorrente e deturpada sistematicamente, por má-fé de uns e
ignorância de outros, teria, a meu ver, merecido obrigatória clarificação
programática. Refiro-me à ideia, que se tem espalhado, segundo a qual o
financiamento do ensino superior é largamente privilegiado por referência
aos subsistemas básico e secundário. Ora a linguagem fria dos números
comunitários não é isso que diz. Diz que somos o país que menos gasta com
o ensino superior, 1,1% do PIB, menos de metade do que gasta a Suécia e a
Dinamarca. Mas já no que ao básico e ao secundário respeita, estamos nos
4,6% do PIB, ultrapassando todos os parceiros, com excepção apenas
daqueles dois. Será que Durão Barroso pensa algo sobre isto? E Ferro
Rodrigues?
E que pensam, um e outro, sobre a gestão das escolas? Continua a farsa
eleitoral?
Vão manter o arremedo de descentralização, responsável por um
incomportável disparo de custos e aparecimento de múltiplos
corporativismos, cujos interesses se sobrepõem aos dos utentes?
Como pensam resolver os milhares de "horários zero" que sorvem,
improdutivamente, os dinheiros dos meus impostos?
Continuam a subsidiar as refeições de todos, ricos ou pobres, desde que
comam numa cantina escolar?
Vão continuar, democraticamente, a obrigar-me a pagar os estudos dos
estudantes que se eternizam nas universidades, mantendo, do mesmo passo, o
"numerus clausus"?
Vão fazer o quê em matéria de avaliação de desempenho, de dedicação
exclusiva, de regime remuneratório, etc., etc.?
Continuam o quê e suspendem o quê?
Se puderem, seus figurões, respondam. Os figurantes agradeceriam.
*Professor do ensino superior
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