Público - 16 de Fevereiro

Grupos de Interesse
Por JOSÉ MANUEL FERNANDES

Uma das coisas curiosas desta pré-campanha é a sanha com que os candidatos se estão a atirar aos "interesses instalados". Não passa um dia que não se diga mal de um lobbie ou se denuncie um corporativismo.

Esta generalizada atitude representa uma viragem de 180 graus: em tempo de campanha, a regra não era começar a atacar tudo e todos, à esquerda e à direita, dos militares aos médicos, dos farmacêuticos aos construtores civis, dos professores aos sindicalistas. Pelo contrário: era tempo de cotejar-lhes o voto, namorar-lhes o apoio.

Que se passou então?

Passou-se que os políticos não deixaram de ser políticos - e como políticos perceberam que os ventos mudaram. Perceberam que é eleitoralmente mais vantajoso bater o pé a todos os interesses instalados, do que prometer "ir estudar" as suas pretensões. Ou "dialogar".

Passou-se que os políticos, mesmo os da situação, perceberam que o povo quer mudanças. Cansou-se da paralisia equilibrista do guterrismo e da sua congénita incapacidade para desagradar. Por outras palavras: o cidadão comum pode não entender quem tem razão nos conflitos entre os grupos de interesse e os vários candidatos, mas dá instintivamente razão aos segundos. Fá-lo porque sente que o país está como está porque muitos desses lobbies manietaram o poder político, condicionaram-no ao ponto de substituírem na acção pública o interesse geral pelo seu interesse particular.

No essencial é saudável esta viragem. Mostra que há vontade de governar, de fazer escolhas. Mas convém não deitar fora a criança com a água do banho.

Expliquemo-nos. O mal português não está em existirem lobbies, grupos de interesse, instintos corporativos, associações do mais diverso tipo empenhadas em causas altruístas ou egoístas. Os lobbies, as associações, os sindicatos, as ordens profissionais, toda a miríade de organizações não governamentais, são manifestações legítimas da sociedade civil e só é pena que não existam mais.

Como já aqui escrevi, governar é escolher - e escolher deve ser feito tendo por base um mandato eleitoral, o respeito pela lei e a capacidade de encontrar entre as corporações, lobbies, associações e tudo o mais a base apoio suficiente para tornar efectivas as escolhas.

Nalguns países, como os Estados Unidos, os lobbies estão oficialmente registados junto do poder legislativo e executivo. Os seus dirigentes são conhecidos, os seus advogados também. Fazem parte formal da democracia, até porque há sempre um lobbie ambientalista a opor-se a um lobbie industrialista, por exemplo. Às vezes ganham uns, outras vezes outros. Não são todos maus nem todos bons. São apenas formas de expressão da sociedade que procuram influenciar as decisões políticas no espaço entre eleições, o que é legítimo e reforça a participação democrática.

Por isso, quando falamos de grupos de interesse, não questionemos a sua legitimidade. Lutemos antes contra a sua tentação de tomarem o estado como refém. Exigamos transparência e lisura de processos - mas não esqueçamos que todos temos interesses e o direito de os defender. Mesmo quando outros interesses mais altos se levantam: os da comunidade. Esses são os que qualquer Governo deve assumir.

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