Público - 16 de Fevereiro

Bispos Definem Critérios Cristãos para Opção de Voto
Por NUNO SÁ LOURENÇO

Bloco de Esquerda reagiu

Aborto, apoio ao ensino não estatal e seriedade dos agentes políticos. São estes alguns dos aspectos que os cristãos devem ter em conta a 17 de Março

É preciso "verificar, entre as soluções encontradas e propostas até agora, aquelas que vale a pena continuar e aquelas que exigem uma mudança de rumo". Foi com este objectivo que o Conselho Permanente da Conferência Episcopal Portuguesa fez sair anteontem uma nota pastoral "sobre o próximo acto eleitoral".

Depois de ressalvar a "particular importância" destas eleições legislativas, os bispos portugueses definiram quais as "questões" em relação às quais era necessário "ter particularmente em atenção a visão da Igreja". Entre estas, encontra-se "o respeito pelo carácter sagrado da vida humana, de toda a vida humana, desde a concepção até à morte natural". Da mesma forma, a nota aconselha os crentes a optar pela força política que oferecesse maiores garantias no sentido do "redimensionar a função do Estado [na Educação], revendo as políticas de promoção e apoio ao ensino não estatal". Os bispos portugueses deram ainda alguma relevância à "seriedade e honestidade dos servidores da sociedade".

Foi contra as duas primeiras "questões" que se insurgiu ontem Francisco Louçã, dirigente e cabeça de lista por Lisboa do Bloco de Esquerda (BE).

O candidato criticou a "insistente condenação do aborto" da Igreja, atitude que implicava "uma forma de criminalização que arrasta mulheres por julgamentos e possibilidade de condenação a penas de prisão". Sobre o ensino, Francisco Louçã considerou que a nota desvalorizava o ensino público a favor do ensino privado. Um "negócio que tem como objectivo o lucro", alertou. Ainda assim, o dirigente do BE congratulou-se com o facto de a nota não reabrir "a guerra do divórcio", indicando isso "uma posição tolerante que deve ser valorizada".

A Conferência Episcopal pedia, portanto, aos cristãos para que julgassem "as situações guiados pela sua fé, ou seja, à luz da palavra de Deus e da doutrina da Igreja". Uma importante necessidade tendo em conta o "acto eleitoral de particular importância" e por ser "hoje mais complexo do que era há alguns anos" decidir sobre o futuro de Portugal. "O discernimento deve ser uma atitude permanente dos cristãos", escrevem os bispos.

Pelo meio, a Conferência fez questão de deixar claro que não era sua intenção reivindicar "para a hierarquia uma função política", "nem nos queremos imiscuir nas justas opções partidárias". O objectivo era tão-só lutar pelo "modelo de sociedade" que desejam, fundamentando "escolhas em critérios de vida cristã".

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