Público - 12 de Fevereiro

Seis Gémeos
Por JOSÉ MANUEL FERNANDES

Só na edição de ontem, e após o nascimento dos seis gémeos da Madeira, é que o PÚBLICO noticiou pela primeira vez, e de forma discreta, o acontecimento.

Não o fizemos por acaso. Fizemo-lo porque sabíamos que a probabilidade dos seis gémeos sobreviverem era muito baixa - e por isso entendemos que não devíamos erguer um circo e fazer uma festa com um caso que poderia vir a ter contornos muito dramáticos.

Compreendemos, naturalmente, a aflição da família. Conhecíamos a curiosidade dos leitores. Mas ao contactarmos os médicos da Maternidade Alfredo da Costa também ficámos a saber que se não fosse possível evitar um parto prematuro antes das 28 semanas, as crianças correriam grave risco de vida - como se veio a verificar. Preferimos, por isso, o silêncio, silêncio que escolhemos por respeito pelo que poderia vir a ter um triste desenlace. Não foi essa a opção tristemente voyeurista da maior parte da restante comunicação social, que neste caso teve porém de enfrentar a enorme dignidade, sobriedade e contenção dos profissionais da Maternidade, com destaque para os seus responsáveis médicos.

No momento em que escrevemos, já faleceram três dos nasciturnos. Esperamos, sinceramente, que os outros se salvem, e sem sequelas que possam vir a afectar irremediavelmente a sua vida futura. Mas não podemos deixar de colocar algumas questões que este caso levanta.

Na verdade não estamos perante uma gravidez normal: os sêxtuplos são fruto de um tratamento contra a infertilidade. Foram gerados no quadro daquilo que habitualmente se designa por "reprodução medicamente assistida".

Não interessa - nem seria possível ou correcto - discutir as circunstâncias exactas do que se passou, assim como não nos compete questionar as opções tomadas, passo a passo, pelos pais. Aliás é a eles que pertence a legitimidade para, à luz dos valores em que acreditam, as questionarem.

O que importa discutir é o enquadramento médico-legal que, no estádio actual da ciência, ainda permite que tais circunstâncias ocorram. Aquilo sobre que importa reflectir é sobre se temos as leis mais correctas e os procedimentos médicos mais adequados não só aos meios de que dispomos no nosso sistema de saúde, mas também aos ambientes culturais e sociais em que se actua.

A ciência médica evoluiu o suficiente nos últimos anos para tornar menos prováveis "acidentes" como tratamentos contra a infertilidade gerarem um número elevado de gémeos. Talvez fosse, por isso, adequado actualizar as leis e normas em vigor. Até porque, como dizia numa das televisões uma das responsáveis médicas entrevistadas, casos como estes levantam aos próprios médicos muitas dúvidas éticas sobre os procedimentos actuais.

Da Assembleia da República que vamos agora eleger espera-se pois que saiba reflectir e legislar sobre este domínio tão sensível. Na Assembleia dissolvida já havia algum trabalho feito, que se perdeu. Não se deverá por isso perder a vontade de regressar a estes temas.

Que os difíceis dias que aquele casal da Madeira estão a viver possam levar à reflexão e à acção. 

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