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Público - 12 de Fevereiro
MANIFESTO PARA A EDUCAÇÃO DA REPÚBLICA
Todos os estudos nacionais e internacionais sobre a educação dos
portugueses convergem para a conclusão incontroversa de que a República
está a educar mal os seus filhos. É essa a razão fundamental por que os
portugueses continuam a não ser capazes de produzir a riqueza que
consomem. É ainda por essa razão que Portugal se está a afastar dos
padrões civilizacionais dos países com quem decidiu partilhar um futuro
comum.
Os países desenvolvidos renovaram os seus sistemas de educação e de
formação profissional em pontos de viragem da sua história. Portugal não
seguiu esse exemplo, nem quando descolonizou, nem quando passou a integrar
a Comunidade Europeia. Em vez da intervenção profunda e coerente que então
se impunha, os sucessivos governos optaram por encarar os problemas
educativos à medida que surgiam, envolvendo-nos numa densa teia de
interesses e irracionalidades da qual não conseguimos ainda
desenvencilhar-nos.
Abriu-se a escola a um maior número de crianças, como era a obrigação dum
regime democrático. Mas mesmo esse sucesso é mais aparente do que real, já
que somos o país da comunidade com a maior taxa de abandono escolar. Por
outro lado, os estudantes que resistem ao abandono recebem, de um modo
geral, uma educação muito deficiente a preços excessivamente elevados.
Isso faz com que Portugal seja hoje um dos países da União que
proporcionalmente mais gasta com a educação e, ao mesmo tempo, aquele que
piores resultados obtém. Assim, a melhoria das condições económicas e
sociais que foi conseguida em condições bastante favoráveis corre o risco
de se perder, desbaratando-se uma oportunidade que dificilmente se
repetirá.
Além disso, a indevida referência à democracia na designação do sistema
irracional de gestão imposto pelo Estado às escolas e, em particular, às
universidades, desacreditou a verdadeira democracia, passando os cidadãos
a associá-la com a ignorância, a demagogia, o egoísmo e, sobretudo, com a
indisciplina e a irresponsabilidade.
Portugal vive presentemente momentos de ansiedade perante o desmoronar de
grandes expectativas nacionais. Os portugueses julgaram -
alimentou-se-lhes esse sonho! - que podiam aceder sem esforço aos elevados
padrões civilizacionais dos países mais desenvolvidos da Europa. Ao
verificar que isso não é verdade, sentem-se defraudados e cépticos.
De um modo geral, o sistema de ensino e de formação profissional não
fornece aos portugueses as ferramentas intelectuais que lhes permitiriam
tirar proveito das enormes oportunidades de bem-estar que as sociedades
pós-industriais oferecem à humanidade e evitar os riscos a elas inerentes.
Ao integrar a União Europeia, Portugal mergulhou num grande espaço
económico onde o conhecimento é o principal factor de desenvolvimento. Não
sendo menos dotados do que os outros povos, podemos atingir graus de
desenvolvimento equivalentes se for proporcionada educação semelhante.
Podemos ser um país mais rico se estivermos dispostos a suportar o esforço
intelectual intenso e prolongado que é actualmente necessário para
adquirir, aplicar e criar conhecimento, muito particularmente o
conhecimento científico.
Por isso, é urgente mobilizar as instituições e os cidadãos para a grande
batalha por um sistema educativo que possa contribuir para o progresso da
sociedade portuguesa. Em particular, é preciso mobilizar as elites,
recorrendo aos portugueses formados em contextos educativos de maior
exigência intelectual e profissional, que estarão certamente dispostos e
motivados para dar o seu contributo ao esforço decisivo que pode tornar
Portugal uma comunidade informada, qualificada e empreendedora.
Neste quadro, apelamos ao Senhor Presidente da República para que mobilize
para a batalha inadiável da educação as instituições e os cidadãos, o
Governo e a Assembleia da República, as escolas e as associações
científicas, profissionais, empresariais e sindicais.
Problemas concretos tais como os objectivos e a articulação dos vários
graus de ensino, a avaliação do desempenho dos estudantes, dos professores
e das escolas, o apoio aos estudantes, os currículos e a acreditação dos
cursos e das instituições, a qualificação académica e profissional, a
formação inicial e continuada, o acesso ao ensino superior, o
financiamento e a gestão das escolas, em particular das universidades, e o
impacte da escola na inovação e na produtividade têm de passar a ser
encarados em conjunto, de um modo coerente.
Solicitamos ao Senhor Presidente da República que utilize os meios
constitucionais ao seu dispor para promover a consciência e o esforço
convergente dos competentes órgãos de soberania e dos cidadãos na
construção de um sistema educativo que, à semelhança do que acontece
noutras sociedades, forme intelectualmente e qualifique profissionalmente
os portugueses. Para que possamos ser, finalmente, o país por que todos
ansiamos.
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