Público - 11 de FevereiroOs "Lobbies" e Os
Cidadãos
Por LUÍS SALGADO DE MATOS
Uma sondagem do "Diário de Notícias" publicada a 9 de Setembro do ano
passado mostrava que 57 por cento dos portugueses consideravam o ensino
razoável. Outra sondagem do mesmo jornal, publicada há dias, revela que
quase metade - 49 por cento - julga-o mau ou muito mau.
Em menos de meio ano, a opinião pública portuguesa terá mudado
substancialmente: quer uma escola melhor.
Outras sondagens vão no mesmo sentido. Segundo um estudo de Abril de
2001, 78 por cento dos portugueses consideravam que o desempenho dos
professores devia ser sujeito a avaliações periódicas. Este valor, já de
si elevado, é hoje 90 por cento.
A mudança da opinião é verosímil. Cresce o descontentamento com as
invenções da burocracia educativa cujo fracasso é simbolizado na "pausa
escolar", um ridículo eufemismo para "férias". E o 11 de Setembro trouxe o
pessimismo. Antes, era racional que nenhum pai se preocupasse com o
emprego do filho: correria leite e mel para todos. Se os receios voltam, é
normal que os pais se preocupem: a escola é a primeira avenida para o
emprego.
Haverá assim um facto novo na vida portuguesa: os eleitores querem mais
qualidade na escola portuguesa. Bem vinda mudança! O estado do nosso
ensino é catastrófico.
Mas a nova escolha dos cidadãos terá algum efeito? Só se os partidos
políticos colocarem a reforma da escola no centro dos seus programas
eleitorais. Porque, numa democracia plebiscitária como a nossa, as
mudanças importantes têm que ser sufragadas em eleições. Ora pode
acontecer que nenhum partido se interesse a sério pela escola.
Como assim, dirá o leitor: se a qualidade do ensino passou a dar votos,
os partidos prometerão um ensino de qualidade. Claro mas não esqueça o
poder dos lobis: os sindicatos do ensino e o Ministério da Educação.
Convém não subestimar este último. Que outro factor explicaria que um
homem competente como o actual ministro da Educação tenha dito, comentando
os maus resultados das provas aferidas: "Temos um problema com a
Matemática que não tem a ver com a escola. Tem a ver com um discurso
público sobre a disciplina, que é desastroso"? Só um Sir Humphrey da
pedagogia teria conseguido persuadir o Ministro que o vergonhoso
desempenho da escola portuguesa no campo da matemática é obra dos
comentadores - que causam complexos de inferioridade (a professores? a
alunos?).
Sindicatos e burocratas do "eduquês" querem ambos um sistema de ensino
centralizado e sem avaliação. A greve e a ameaça de greve servem para o
manterem. Por isso, rejeitam as propostas de confiar a escola aos
municípios - ontem valorizadas por António Barreto, no PÚBLICO - e esquecem os
direitos educativos da família.
Nas próximas eleições, os partidos terão que escolher, também no
ensino, entre o cidadão e os lobis. O PSD deu um sinal de, neste campo,
preferir o cidadão. Perseverará? Qual será a escolha do PS? Veremos.