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Público - 10 de Fevereiro
Duas Propostas Modestas
Por ANTÓNIO BARRETO
Mês de campanha, mês de promessas, mês de propostas. É natural que assim
seja. Cada partido esforça-se por ter pelo menos uma proposta nova por
dia, geralmente anunciada poucos minutos antes das notícias das oito. Já
tivemos vários exemplos, sendo uns adequados, outros inconvenientes e
outros disparatados. A privatização da Caixa Geral de Depósitos, proposta
por Durão Barroso, ficou famosa, sobretudo porque ninguém a queria, nem os
economistas do PSD, nem os dirigentes da Caixa, nem os capitalistas
eventualmente interessados. Muito menos os depositantes. Também para a
história fica a sugestão, da autoria do mesmo Barroso, de reduzir o IRS,
ao mesmo tempo que pretende diminuir o défice, ideia prontamente
contrariada por economistas de todos os bordos, inclusive do partido
proponente. Surpresa ainda, finalmente, as propostas de Ferro Rodrigues e
dos dirigentes do PS, relativamente às farmácias sociais e aos genéricos:
tiveram sobretudo o efeito de recordar um dos maiores falhanços de seis
anos de governo, o da saúde.
Aproveitando a maré, quero, modestamente, dar o meu contributo. Neste
caso, com duas ou três propostas simples para a educação. Há, neste
sector, mil e uma coisas a fazer. Políticas, medidas, orientações,
investimentos, reformas e leis, o catálogo é imenso. De tal modo que é
medonha a tentação de preparar reformas globais e integradas, termos que
detesto acima de tudo e que sucessivamente implicam ou impotência ou
demagogia. Apesar de saber que na área educativa, a que pertencem vários
partidos, germinarem já novas ideias de reforma global, considero que tais
esforços serão inúteis e enganosos. Mais vale preparar reformas e
programas concretos, a pôr em prática gradualmente, evitando assim as
enxurradas que destroçam mais do que constroem.
O sistema educativo português sofre, entre outros, de um defeito terrível:
é excessivamente uniforme, integrado e centralizado. Por isso é impossível
de gerir e administrar. Fechado ao escrutínio exterior e público, torna-se
muito difícil de reformar. O sistema parece desenhado deliberadamente para
impedir que a excelência se revele. É destruidor de toda a diversidade. E
inimigo da responsabilidade dos cidadãos, dos pais e até dos professores.
Provavelmente a principal fonte desperdício nacional, penaliza o mérito e
recompensa a mediocridade. Se lhe retirarmos, parcial ou totalmente,
aqueles três atributos, não se eliminarão, de repente, todos estes
defeitos, mas criar-se-ão condições e estímulos para que estes sejam
eficazmente combatidos. Por outras palavras, se for diverso e
descentralizado, o sistema educativo será mais bem administrado e
susceptível de melhoramento.
A minha primeira proposta consiste na entrega, às autarquias locais, de
todo o sistema educativo pré-escolar, básico e secundário. E digo bem
todo: orçamentos, edifícios, gestão, professores, funcionários, obras e
equipamentos. E até uma parte do currículo. Com a preparação e o
gradualismo adequados, as escolas passariam a pertencer totalmente às
câmaras municipais (e em certos casos às freguesias), que teriam, em
conjunto com os munícipes, os pais e os professores, toda a
responsabilidade política, económica, administrativa e pedagógica. As
competências ficariam claramente determinadas. O envolvimento da sociedade
seria possível e desejável. O controlo social reforçado. Ao governo
sobrariam funções, residuais na dimensão, mas essenciais na competência:
avaliação, inspecção e fiscalização, além de acompanhamento do currículo
nacional. E da política social.
O mesmo espírito ditaria uma nova organização do ensino superior,
sobretudo da universidade. Com a revogação de grande parte das leis de
orientação actuais, seria decretada a real autonomia dos estabelecimentos
de ensino superior e investigação. As universidades e as faculdades
passariam a ser responsáveis pelo essencial da sua actividade, de que não
se eximiriam de prestar contas. Teriam liberdade de recrutamento de
professores, investigadores, estudantes e técnicos. Administrariam os seus
orçamentos com total liberdade e inteira responsabilidade. Definiriam os
seus próprios modelos de governo e gestão, que poderiam, aliás, ser
diferentes uns dos outros. Ser-lhes-ia possível, por exemplo, contratar
reitores, administradores profissionais e directores. Recrutariam, a prazo
ou definitivamente, cientistas e docentes, a quem pagariam de acordo com o
trabalho, o mérito e as competências. Estariam livres de se associar
intimamente à sociedade, designadamente ao mundo cultural, artístico e
empresarial, assim como às autarquias, associações profissionais,
sociedades científicas e outras instituições. Cumpririam regras gerais e
abstractas, aplicando-as concreta e diversamente. Por exemplo, a lei geral
diria apenas que cada estabelecimento deverá tornar públicas as suas
regras de prescrição e sucesso académico anual. Mas cada faculdade fixaria
as suas condições. Uma mais exigente entenderá que seis anos são
suficientes para terminar uma licenciatura, enquanto outra ficará
satisfeita com doze. O problema é delas. Mas o público saberá distinguir.
Será preciso acrescentar que todas as escolas, básicas, secundárias ou
superiores teriam evidentemente de respeitar a lei geral sobre matérias
como os direitos fundamentais, os castigos físicos, a segregação racial, a
discriminação social, o favoritismo político e a liberdade de expressão?
Por cima de tudo, para o básico, o secundário e o superior, ao ministério
da educação, assim reduzido ao que é nobre e importante, competiria zelar
pelas condições de livre circulação de professores e estudantes e de apoio
social, assim como da liberdade de ensino e de investigação. Para o que
teria de se desempenhar rigorosamente das suas funções de inspecção,
fiscalização e avaliação. Com estas receitas, iria finalmente este
monstruoso ministério ocupar-se do essencial. Talvez assim deixasse de ser
um dos principais obstáculos ao progresso da educação, da cultura e da
ciência no nosso país.
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