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Diário do Minho - 5 de Fevereiro
ASSOCIAÇÃO DE FAMÍLIAS NUMEROSAS
P. Rui Rosas da Silva
Não, não vamos falar duma peça de teatro, dum romance, dum artigo de
jornal que aponta as múltiplas dificuldades e inconvenientes de sustentar
uma família numerosa. Nem sequer da desagradável recordação dum dito
chocarreiro, duma censura bronca e malcriada, que, não há muito tempo, uma
mãe, que acabava de dar à luz o seu sétimo filho, ouviu em determinado
ambiente sanitário: "Os filhos não lhe pesam?".
Ela calou-se, aguentando a "boca" irreverente do agente de saúde.
Condenava-a como uma espécie de troglodita, que cometia a loucura
imperdoável de fazer vingar o seu rebento número sete, quando podia ter
abortado e tornar-se assim uma mulher do nosso tempo, sem preconceitos e
desenvolta, mesmo que para tanto matasse o filho que germinava nas suas
entranhas.
Talvez por isso, a essa mãe fértil, que obedecia ao que, ecologicamente, a
natureza lhe proporcionava com generosidade, o agente de saúde, desabrido
e insolente, voltou à carga, fulminando-a: "Ouviu o que eu lhe disse? Os
filhos não lhe pesam...?". Desta vez, não pôde mais. E respondeu-lhe,
consoante lhe tinham ensinado na sua juventude: "Nos braços, sim. Na
consciência, não...".
Não é fácil manter-se hoje em dia uma família numerosa. Não tanto por
razões económicas, mas porque se olha com circunspecção quem a constrói e
quem a assume. Decerto que nós sabemos que a nossa população está a
envelhecer; que a média de todas as famílias portuguesas é de 2,8 pessoas
por unidade; que 32% dos casais que se casam se divorciam; que das uniões
de facto só 4% duram mais de 10 anos; que a taxa de natalidade portuguesa
é das mais baixas da Europa e do mundo, pois não chega ao 1,5 filhos por
mulher fértil, quando a recomposição das gerações necessita de 2,1; que há
um déficite anual de nascimentos de várias dezenas de milhar; que o nosso
insucesso escolar é ainda inferior... ao do México, o que, mesmo
respeitando tudo o que há de encantador e atractivo neste simpático país
da América Central, não nos deixa nada consolados...
Ou seja, sabemos tudo isso, mas, como a avestruz cobarde e temerosa,
metemos a cabeça na terra e olhamos, sem perspectivas de futuro, para este
país que parece em extinção e sentimos uma certa nostalgia ao saber que a
população se está, em parte a equilibrar, com a vinda de milhares e
milhares de emigrantes para o nosso território, oriundos de Leste, da
África e da América Latina, sobretudo do Brasil, a fim de preencher com
operários os postos de trabalho que nós, por inanição, impotência ou como
queiramos chamar-lhe, não somos capazes de produzir.
E como também as autoridades públicas cruzam os braços e apoiam todo o
tipo de política anti-familiar, assistimos, indiferentes, ao ruir do nosso
tecido social, ao fecho sucessivo de escolas, ao desemprego inevitável de
gerações de professores, à desertificação das zonas interiores do país,
com a apatia de quem não sabe o que fazer. Ultimamente, o Estado resolveu
contribuir para piorar a situação, incentivando a educação sexual nas
escolas, que, em termos práticos, se limita a ensinar os nossos jovens
adolescentes a fazer sexo sem procriar, quer recorrendo aos processos
clássicos para evitar as gravidezes, quer induzindo a abortar sem
contemplações quem as contraiu por lapso. Eis como se torna o sexo uma
espécie de recriação obrigatória e irresponsável para os nossos alunos.
Por estas e por outras medidas, não é de admirar que o Estado consiga
apresentar como único factor de renovação populacional as nossas cadeias,
que nunca como dantes albergaram uma população jovem crescente e,
infelizmente, com tendência a aumentar.
Mas nem tudo é mau em Portugal. Há quem acorra em defesa de cerca de 7%
das famílias lusitanas (as que são ainda capazes de gerar três ou mais
descendentes), que contribui liberalmente para 26% dos nascimentos de
novos cidadãos portugueses. É a Associação de Famílias Numerosas, que
reúne casais com pelo menos 3 filhos e se está espalhando pelo país.
Há dias, na cidade onde vive, o autor destas linhas teve oportunidade de
assistir a uma sessão orientada pelo seu presidente. Muito pouca gente o
ouviu, talvez por haver alguma relutância e desinteresse entre os nossos
cidadãos. A apatia generalizada que se nota perante os problemas da
família, tão vituperada pelo Estado português, anestesia a consciência,
que se sente irritada se lhe lembram algumas ideias simples e concretas
sobre os direitos dos pais. Aqui, sim, o Estado tem ganho de momento a sua
batalha. Adormecendo as famílias, faz o que quer, entra na esfera íntima
dos cidadãos, que já nem se lembram da usurpação de direitos com que ele
os neutraliza.
Mais uma razão para incentivar os mentores desta associação, no sentido de
que continuem a lançar a boa semente pela nossa terra.
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