Independente - 2 de Fevereiro

Igreja exige respostas antes do voto

Cardeal patriarca mobiliza os cristãos para o debate político e a influente Comissão Nacional de Justiça e Paz divulga a lista de questões que quer ver esclarecidas antes das eleições


Inês Dentinho

identinho@oindependente.pt

Dezasseis perguntas, "a título tão-só exemplificativo ", foram lançadas nesta, semana pela Comissão Nacional de justiça e Paz (CNJP) aos partidos que se candidatam às eleições legislativas de 17 de Março. Esta organização laical (da Igreja Católica. "actua sob a sua própria responsabilidade, ainda que em ligação com a hierarquia” e representa um influente braço "civil" da Santa Sé em todo o mundo. 0 comunicado pressiona os políticos no sentido de uma clarificação muito concreta de pontos sensíveis para a Igreja Católica, sendo evidente que dessas respostas depende a reacção eleitoral de milhares de fiéis.

"Que política familiar propõem ao País?", "Que posição assumem perante o aborto?" e "0 que entendem apresentar em matéria de planeamento familiar e educação sexual?" são as três primeiras questões do documento, que leva o título "Eleições 2002: que desafios?".

Esta iniciativa decorre das regulares funções da CNJP, mas atende igualmente ao sério desafio que o cardeal -patriarca de Lisboa lançou aos cristãos na homilia de 1 de Janeiro último. Nessa altura, D. José Policarpo fez um fortíssimo apelo aos fiéis, no sentido de uma maior participação no debate político que antecede as eleições de 17 de Março: "No momento -que o País atravessa, na iminência de os cidadãos serem chamados a pronunciar-se através do voto, não apenas sobre quem 'querem que os governe mas também sobre' o modelo de sociedade que desejam, uma reflexão de todos, o mais profunda possível, é necessária. Nós, os cristãos, somos chamados a fazê-Ia, certamente motivados pelos problemas concretos da sociedade mas, sobretudo, iluminados pela Fé e as suas exigências morais, no quadro da doutrina da Igreja."

Usando um tom invulgarmente civil", o cardeal-patriarca de Lisboa foi mais longe: "Nós, os cristãos, não podemos deixar de ter em conta a doutrina da Igreja sobre a sociedade, a qual, não se identificando com nenhum projecto político partidário, enuncia princípios e valores decisivos para a edificação de uma sociedade harmónica, baseada na solidariedade, na justiça e na Paz. Antes de mais, o respeito e o cultivo do carácter sagrado da vida humana, desde a sua concepção até à morte natural".

0 apelo gerou respostas em vários sectores da Igreja. Os cristãos mobilizam-se com uma energia política inusitada. Multiplicam-se as conferências, os debates, e assiste-se a um novo envolvimento de activistas de organizações contra o aborto na vida político-partidária, sobretudo na sequência do chamado "julgamento da Maia".

Tamanha movimentação dá os primeiros resultados: os líderes partidários sentem a necessidade de clarificarem as suas posições sobre o aborto, não só em relação aos movimentos favoráveis à interrupção voluntária da gravidez mas agora também no que respeita à Igreja, que quer uma resposta clara acerca do que vai passar-se nos próximos quatro anos.

Ainda ontem D. José Policarpo insistiu na urgência de um debate político esclarecido antes das legislativas antecipadas de Março. 0 presidente da Conferência Episcopal publicou um artigo no jornal "A Voz da Verdade", sob o título "Quaresma e Discernimento", no qual diz, à cabeça: "A Quaresma é um tempo em. que somos chamados, mais radicalmente, a viver a verdade da nossa vida cristã." Acrescenta: "0 momento que vivemos, de preparação para as eleições legislativas, exige esse discernimento, que, para ser cristão, deve ser feito à luz da verdade cristã em que acreditamos. Dela brota, antes de mais, a exigência da nossa participação." E logo depois adianta, preto no branco: "Ao escolher com o nosso voto o principal órgão de soberania, de que emanará o Governo da nação, não nos podemos deixar motivar apenas por simpatias partidárias ou pela personalidade dos intervenientes : o cristão tem de ter em conta as propostas concretas apresentadas, confrontá-las com a doutrina da Igreja sobre a pessoa e sobre a sociedade."

A Comissão Nacional de Justiça e Paz - usando a sua habitual sintonia autónoma em relação aos bispos -especifica as questões que pretende ver respondidas durante a campanha. Para além das três primeiras, já referidas, seguem-se outras preocupações sociais, todas elas num registo de presente do condicional: "Quais as bases de uma consistente reforma educativa para os jovens?", "Que rumo deve ser imprimido às reformas a encetar ria saúde e nas pensões?" e "Quais os traços dominantes da reforma fiscal quanto à equidade, simplicidade e eficácia?".

Para a CNJP, "a ideia fundamental que deve estar no centro do debate eleitoral é a de colocar a pessoa humana e a sua dignidade como ponto de partida e de chegada de todo e qualquer projecto e processo políticos".

Todo o clero português tem acesso às palavras do presidente da Conferência Episcopal, bem como ao comunicado daquela organização. E natural que adopte o mesmo repto nas suas homilias. Se assim for, teremos um "exército de votantes" sensível às propostas eleitorais concretas e não apenas a performance" dos líderes políticos, ao "marketing" das campanhas ou às anteriores fidelidades partidárias. Uma revolução. 

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