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Expresso - 9 de Fevereiro
Quando começa a vida?
João Paulo Barbosa de Melo*
«Se pudéssemos voltar atrás, se ainda fosse possível corrigir a coisa... É
nesta interrogação que nasce a justificação do aborto. Se é apenas um
pequeno conjunto de células... bem, então ainda não é verdadeiramente
gente e podemos deitá-lo ao lixo; e ainda que seja maiorzinho, que diabo!,
ainda não fala nem respira e temos dúvidas de que pense ou sofra... Ai!,
dava tanto jeito... E assim, como dá jeito, arranjamos todas as desculpas
do mundo.»
QUANDO é que um óvulo fecundado passa a ser vida humana? Será na altura em
que o feto adquire a capacidade de ser «autónomo»? Se assim fosse seria
legítimo matar crianças até aos dois ou três anos de idade... Será quando
sai, pelos seus meios, do ventre da mãe? Se assim fosse poderíamos
trinchá-lo dentro da barriga e aspirá-lo na véspera do previsto
nascimento... Será quando já é muito parecido com um «verdadeiro» bebé
(pelos quatro meses de gestação)? Será quando o coração começa a bater e
quando se estrutura o sistema nervoso (pelas seis semanas)? Será quando
atinge um certo número de células? Será...?
Não há nem pode haver resposta segura a esta pergunta. A atitude razoável
deve passar, portanto, por perceber que, de certo, só sabemos que no
momento da fecundação se inicia um projecto de vida humana que, em
circunstâncias normais, acabará por produzir um ser humano irrepetível e
único. O resto é, cientificamente, treta! Que fazer, então?
Comecemos por notar que não é só nesta área do conhecimento que surgem
problemas de indeterminação como este. Olhemos, por exemplo, para o campo
da ecologia: a argumentação «ecológica» é que quando não temos a certeza
de quais são os verdadeiros efeitos (sobre o ambiente) de uma determinada
acção, então, à cautela, devemos partir do pressuposto de que se
verificará o pior cenário concebível. Chama-se a isto o «princípio da
precaução».
Aplicando este princípio à questão de saber quando começa a vida humana, é
claro que a única resposta razoável da nossa inteligência será: como não é
possível determiná-lo com certeza de outra forma, devemos situar esse
começo no momento em que o processo se inicia, ou seja, quando da
fecundação. Se calhar até nos enganamos e a «verdadeira» vida humana não
começa antes das três ou às doze ou às 36 ou 40 semanas. Mas como nunca
será possível determiná-lo com precisão, optemos pela única solução
intelectualmente séria!
É claro que, numa sociedade civilizada, ninguém concorda que seja lícito
por motivos económicos, de conveniência ou de vergonha social tirar a
vida a um seu semelhante. A não repreensibilidade ética (ou legal) da
provocação de um aborto assenta, portanto, na ideia de que não é uma vida
humana o que se está a sacrificar mas uma «coisa» que faz parte do corpo
de uma mulher. Se soubéssemos que essa «coisa» seria uma «vida humana»,
não haveria dúvidas éticas de condenar veementemente a possibilidade. A
questão vai, portanto, dar sempre ao mesmo: quando começa a vida humana? E
se dermos a única resposta científica e logicamente razoável seremos
obrigados a ver aquele pequeno conjunto de células na barriga da mãe como
uma vida humana. Aliás, à medida que melhora o conhecimento sobre aquilo
que antes não víamos e sobre mecanismos que antes não compreendíamos, cada
vez se torna mais irrazoável defender o contrário.
Agora é claro que isso não dá jeito nenhum! Não dá jeito a gente
entusiasmar-se e, num repente, virar pai ou mãe; não dá jeito falhar a
pílula ou o preservativo; não dá jeito pensar em gravidezes quando
queremos apenas passar um bom bocado; não dá jeito ser assombrado pelo
fruto de uma relação ocasional; não dá jeito ter de mudar inesperadamente
o rumo na vida que tínhamos previsto. Não dá jeito mesmo nenhum...
Se pudéssemos voltar atrás, se ainda fosse possível corrigir a coisa... É
nesta interrogação que nasce a justificação do aborto. Se é apenas um
pequeno conjunto de células... bem, então ainda não é verdadeiramente
gente e podemos deitá-lo ao lixo; e ainda que seja maiorzinho, que diabo!,
ainda não fala nem respira e temos dúvidas de que pense ou sofra... Ai!,
dava tanto jeito... E assim, como dá jeito, arranjamos todas as desculpas
do mundo.
Por muito que isso custe às mulheres e sobretudo aos homens, habituados
há milénios a despachar o assunto e a responsabilidade para cima delas ,
ao recusarmos a possibilidade de provocar o aborto para desfazer o que foi
feito estamos a admitir que, em qualquer relação sexual que junte óvulos
com espermatozóides, há sempre uma hipótese de gerarmos um novo ser: uma
hipótese remota, no tempo dos anticoncepcionais, mas uma hipótese não
nula. De algum modo, portanto, a recusa da licitude do aborto provocado
acaba por limitar a liberdade no campo sexual: por mais que se faça, nunca
se pode garantir a 100 por cento que não vai dali sair uma criança! Se, no
entanto, em todos os outros aspectos da vida relacional encontramos
limites à nossa liberdade, porque só no campo sexual havíamos de tentar
fazer de conta que eles não existem?! E isto tanto vale para as mulheres
como para os homens. A sociedade e a lei do tempo do teste do ADN (que não
deixa dúvidas quanto à paternidade) não pode continuar a discriminar os
progenitores: aquele filho tanto é daquele pai como daquela mãe e se é
apenas a mãe, por razões biológicas inultrapassáveis, a trazê-lo no
ventre, isso em nada diminui as obrigações (materiais, de tempo,
afectivas) do pai. É tempo de mudarmos, finalmente, algumas concepções
machistas e desresponsabilizantes das nossas sociedades, que estão na base
da ideia da licitude do aborto.
Numa sociedade em que se prega e bem que os homens e as mulheres devem
partilhar todos os aspectos da vida, numa sociedade culta em que não
conhecemos apenas o que vemos mas também o que concebemos e pensamos, numa
sociedade que cultiva a responsabilidade, numa sociedade rica que tem
meios para assegurar muito mais do que os mínimos para todas as crianças
que sejam concebidas e em que tantos buscam filhos que não podem ter, numa
sociedade que sublima a compaixão e se horroriza com os assassínios em
massa nesta sociedade não pode haver qualquer razão aceitável para
justificar o aniquilamento de frágeis conjuntos de células e embriões que
a nossa razão sabe serem vidas humanas. Mesmo que dê jeito!
Fosse a vida mais fácil...
* Economista; assistente da Faculdade de Economia da Universidade de
Coimbra
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