Expresso - 9 de Fevereiro

Pesadelo dogmático

João Carlos Espada

«Fazendo uso de uma autoridade central sem freios nem contrapesos, a burocracia central destruiu os mecanismos espontâneos e descentralizados que poderiam ter permitido repor gradualmente a autoridade nas escolas: a concorrência entre escolas, as boas e as más, as ordeiras e as desordeiras, as pacíficas e as violentas.»

NA PRIMEIRA página do EXPRESSO da semana passada, sob o título «Professores sofrem», podia ler-se que «em cada semana, três professores são hoje vítimas de agressões físicas por parte de alunos ou de pais de alunos, quando, em 1999, a média era de apenas um».

Em seguida, éramos informados de que, para fazer face a esta situação, o Conselho Nacional de Educação recomendava que «os agressores - hoje praticamente impunes - (passassem) a incorrer em penas até cinco anos de prisão».

Infelizmente, não fui surpreendido por estas notícias.

Em primeiro lugar, porque a chamada «cultura jovem» - hoje disseminada por adultos semi-educados, sobretudo na televisão - é um permanente convite à turbulência. Sob o dogma relativista da igualdade, desapareceu a distinção entre hierarquias de comportamento e de autoridade. Se tudo é igual ao seu contrário, por que não agredir um professor?

Em segundo lugar, este dogmatismo igualitário foi introduzido nas escolas pelo próprio Ministério da Educação. O dogma da igualdade foi levado tão longe que na prática deixou de haver reprovações; a autoridade do professor na sala de aula - hoje considerado apenas como «um amigo dos alunos» - foi expropriada da tradicional escala gradual de mecanismos dissuasores da indisciplina; e agora até temos «provas de aferição» em que os alunos não têm notas.

Em terceiro lugar, o dogmatismo igualitário foi imposto às escolas de forma totalmente autoritária e uniformizadora. Os sucessivos regulamentos «inovadores» foram impostos uniformemente a todas as escolas estatais, e até, em boa parte, às escolas independentes. A possibilidade de adopção de diferentes projectos e estilos educativos foi drasticamente reduzida. E, como se sabe, a escolha das famílias entre as escolas estatais é proibida, sendo a alocação dos alunos feita na base da residência. As escolas independentes podem ainda ser escolhidas - ainda nos autorizam essa escolha - mas os pais pagam aí a dobrar: pagam as propinas dos seus filhos e pagam nos impostos as propinas dos filhos dos outros.

Por outras palavras: a partir de cima, o dogmatismo igualitário destruiu a liberdade das escolas, sobretudo estatais, para adoptarem diferentes estilos educativos e das famílias para escolherem entre eles. Fazendo uso de uma autoridade central sem freios nem contrapesos, a burocracia central destruiu os mecanismos espontâneos e descentralizados que poderiam ter permitido repor gradualmente a autoridade nas escolas: a concorrência entre escolas, as boas e as más, as ordeiras e as desordeiras, as pacíficas e as violentas. Este controlo dogmático central foi mesmo ao ponto de, até Agosto do ano passado, o Ministério da Educação ter mantido secretos os resultados das escolas nos exames nacionais.

Compreende-se agora porquê: o dogmatismo igualitário e autoritário receava ser posto à prova através dos resultados que realmente produz - e não da demagogia sobre igualdade, «auto expressão» e «auto estima».

Mas a notícia do EXPRESSO interrompeu o pesadelo dogmático e permitiu que a realidade nua e crua voltasse ao de cima: as escolas estão a ficar ingovernáveis. Seria talvez boa altura para romper com o dogmatismo e devolver às escolas e às famílias a liberdade de escolherem fugir aos dogmas das teorias da educação. 

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