Expresso - 3 de Fevereiro

Medo da autoridade

Henrique Monteiro

«Como é possível alguém arranjar subterfúgios tão descarados, tão vácuos e desfasados para contestar algo tão evidente? A indisciplina nas escolas não decorre hoje, e no geral, de nenhuma contestação, mas da mera falta de educação, do simples défice de civismo.»

O CONSELHO Nacional de Educação veio propor uma heresia: pretende reforçar a autoridade nas escolas e aplicar penas mais duras a pais e alunos que agridam professores.

A heresia, claro está, reside no uso da palavra autoridade. Autoridade? Nas escolas? O Conselho levou um pouco mais do que seria admissível, mas lá chegou à conclusão - sim, é preciso mais autoridade nas escolas. Como diz o provérbio, mais vale tarde do que nunca.

Os professores gostam da ideia, até a aplaudem, mas, é claro, nada está ainda decidido. Num inquérito realizado pelo «DN», o presidente da Associação dos Estudantes do Secundário do Porto, um jovem liceal, veio opor-se à proposta. E disse coisas extraordinárias, certamente ouvidas dessas pessoas extraordinárias que todos ouvimos na televisão: «A indisciplina é um problema que tem raízes sociais que se devem procurar e debelar. A solução não é mascarar os reais problemas».

Ora aí está uma coisa que o Conselho Nacional de Educação não se deve ter lembrado! O facto de a indisciplina ter raízes sociais! Devemos, portanto, esperar que os problemas sociais sejam todos resolvidos (talvez dure apenas uns milhares de anos), para depois actuarmos. No caso, é claro, da indisciplina, mesmo assim, teimar em manter-se. Tudo o resto é mascarar o problema.

Mas se o jovem liceal pode estar influenciado por doutrinas que têm feito furor na moderna sociologia portuguesa, já da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap) seria de esperar uma posição mais elaborada. Na realidade, foi o que aconteceu. A Confap não se refugiou na questão social. Antes disse que era contra a proposta porque «a autoridade poderá transformar-se em autoritarismo». Pois é, também ninguém se tinha lembrado deste argumento. Autoritarismo! É um risco. A gente sabe como são as escolas... Os jovens entram silenciosos e cabisbaixos, sussurrando entre si para não incomodar os professores. Sentam-se nas carteiras, quietos e atenciosos, temendo uma resposta errada ou um franzir de sobrolho do mestre. Meu Deus, será preciso mais autoritarismo?

Este é o país real, profundamente ridículo. Não é o país dos partidos e dos políticos, mas o de uma associação de pais e de uma associação de estudantes; da sociedade civil. Como é possível alguém arranjar subterfúgios tão descarados, tão vácuos e desfasados para contestar algo tão evidente? A indisciplina nas escolas não decorre hoje, e no geral, de nenhuma contestação, mas da mera falta de educação, do simples défice de civismo.

Como é possível uma associação nacional de pais (que pretende representar aqueles que em primeira linha são responsáveis pela educação dos seus filhos) temer o «autoritarismo» de escolas onde a maioria dos professores tem medo dos alunos?

E pensar que boa parte desta gente deve andar a queixar-se da falta da autoridade do Estado, do Governo e não se sabe de quem mais. Autoridade sobre os outros, já se vê!

E-mail hmonteiro@mail.expresso.pt 

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