Expresso - 3 de Fevereiro

Educação: os culpados de há 200 anos

«Todos sabemos que a melhor forma de alijar responsabilidades próprias é sublinhar as responsabilidades alheias. Não há, pois, como distribuí-las por dois séculos, começando pelas culpas da geração de Oitocentos, para desculpabilizar a inépcia das gerações mais próximas. E não deixa de ser uma ironia trágica que o quadro agora descrito nos chegue pela mão de alguns daqueles que há 30 anos pensam a Educação em Portugal, que estiveram pessoalmente envolvidos em reformas e tiveram a rara oportunidade de as aplicar, enquanto responsáveis políticos.»

FAZ agora 200 anos, quando a miséria era mais generalizada, Portugal até nem estava mal colocado na hierarquia dos países europeus em matéria de Ensino: tinha mais de 90% de analfabetos e esse indicador não diferia muito dos que se registavam nos restantes países do Sul da Europa. Mas um século depois, em 1900, 76% dos portugueses continuavam sem saber ler nem escrever, contra 60% dos espanhóis e 56% dos italianos. Isto para já não falar dos habitantes do Norte europeu onde, no mesmo período de 100 anos, o analfabetismo fora reduzido para valores entre os 10 e os 30% - os mesmos 30% que existiam em Portugal há menos de 30 anos. Hoje, as taxas de analfabetismo andam pelos oito ou 10% e são marcadamente geracionais, mas basta pensar no que dizem as estatísticas da OCDE sobre iliteracia em Portugal (80%) ou observar os resultados das provas de aferição agora divulgadas para percebermos que continuamos a marcar passo.

Os números sobre o passado mais distante, atrás citados, constam de um artigo do ex-ministro da Educação, Roberto Carneiro, que serve de introdução a um estudo encomendado por um dos seus sucessores, Marçal Grilo. São 1200 páginas riquíssimas de informação e análise, que precisam de tempo para serem digeridas, mas que confirmam integralmente o quadro negro traçado por inúmeros trabalhos parcelares, nacionais e internacionais: estamos na cauda da Europa - e a Europa, aqui, vai do Atlântico aos Urais, pois não se limita à rica União a que pertencemos.

Para não perdermos irremediavelmente o comboio, a mensagem essencial dos técnicos que fizeram o diagnóstico é clara: a Educação precisa, segundo as palavras de Roberto Carneiro, de um «investimento brutal» e de um «acordo estratégico» que envolva toda a sociedade. Isto se quisermos recuperar em 20 anos o atraso que acumulámos nos últimos 200.

Estudos como o que foi apresentado na quarta-feira são instrumentos preciosos e indispensáveis para se avaliar a dimensão da catástrofe e definir as acções mais indicadas para debelar os seus efeitos. O trabalho em causa mostra que sucessivas gerações de políticos, monárquicos e republicanos, conservadores e progressistas, em ditadura e em democracia, falharam em toda a linha. Faltou-lhes a visão estratégica, a vontade e, em certos casos, talvez a estabilidade política; faltou-lhes a capacidade de definir um rumo e a determinação de executar um programa; faltou-lhes a clareza de espírito para fazerem as opções correctas - ou, em certos casos, apenas a humildade necessária para darem sequência e aplicarem, coerentemente e até ao fim, reformas e projectos lançados por outros que os precederam.

Todos sabemos que a melhor forma de alijar responsabilidades próprias é sublinhar as responsabilidades alheias. Não há, pois, como distribuí-las por dois séculos, começando pelas culpas da geração de Oitocentos, para desculpabilizar a inépcia das gerações mais próximas. E não deixa de ser uma ironia trágica que o quadro agora descrito nos chegue pela mão de alguns daqueles que há 30 anos pensam a Educação em Portugal, que estiveram pessoalmente envolvidos em reformas e tiveram a rara oportunidade de as aplicar, enquanto responsáveis políticos.

Aliás, não foi por falta, mas talvez por excesso de iniciativas desgarradas, de estudos avulsos e de propostas falsamente arrojadas que acumulámos atrasos e avançámos às arrecuas. Quase todos os governos, para não dizer quase todos os ministros e secretários de Estado, tiveram um programa ou uma ideia original e quiseram deixar a sua marca. Daí que nenhuma reforma tenha chegado ao fim. Daí os grandes e pequenos sinais de incoerência e desorientação geral - das faltas que não contam para se passar de ano até à desautorização dos professores ou, no que diz respeito a disciplina, à sua transformação em funcionários judiciais. Daí a cultura da facilidade assumida como doutrina para disfarçar o insucesso. Daí a acelerada perda de qualidade do ensino, a falta de cuidado na preparação de muitos docentes, o desalento dos mais capazes, a sua perda de autoridade e a degradação do seu estatuto. Daí que algumas escolas se tenham transformado em lugares de risco e outras pouco mais sejam do que espaços de acolhimento a crianças e jovens que, muito antes da aprendizagem, do que mais precisam é de algo parecido com uma família e de um pouco de atenção - problemas de que a escola não tem culpa mas de que sofre as consequências.

Dizem agora os estudiosos que é preciso um «investimento brutal», devendo ser elevadas para 7% do PIB, em lugar dos actuais 5,8%, as verbas para a Educação. Têm certamente razão. Mas quando vemos que, por falta de alunos, estão a ser encerradas escolas em boas condições e algumas de construção recente, como a David Mourão-Ferreira, onde há cinco anos se aplicou um milhão de contos, ocorre perguntar: será mesmo dinheiro aquilo de que mais precisamos? Ou apenas de mais rigor e bom senso na sua aplicação? Ou será de competência, de um pouco mais de responsabilidade e capacidade de previsão?

O número de alunos não diminuiu drasticamente de um dia para o outro. Há muito que a regressão se verifica e, no entanto, a prioridade dos últimos anos tem sido o investimento no parque escolar, com certeza necessário em muitos casos mas, pelos vistos, dispensável em muitos outros se a gestão fosse mais racional. Será que, à semelhança do que parece acontecer noutros locais, o lóbi da construção civil é quem mais ordena no Ministério? Ou também devemos culpar por isto os políticos de Oitocentos?

Tudo visto e ponderado, o drama da Educação não é muito diferente do de outros sectores em Portugal. Temos quem teorize e apresente diagnósticos. Falta quem faça, a pensar um pouco mais longe do que no dia de amanhã.

E-mail: fmadrinha@mail.expresso.pt 

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