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Expresso - 3 de Fevereiro
Agressões de alunos a professores triplicam
Aumenta a violência sobre docentes. O Conselho de Educação quer um
agravamento das penas
Luiz Carvalho
TRÊS professores são agredidos fisicamente todas as semanas por alunos e
pais ou encarregados de educação. Os dados revelados ao EXPRESSO pelo
chefe de gabinete do secretário de Estado da Administração Educativa
indicam que as 146 agressões participadas pelas escolas ao Ministério da
Educação durante 2001 são quase três vezes superiores às de 1999 (em que
se registaram 55) e registam ainda uma subida em relação a 2000 (139
casos).
Recorde-se que os dados oficiais conhecidos eram os de 1999, pelo que as
novas informações permitiram concluir que em dois anos se verificou quase
uma triplicação das agressões.
«Aparentemente, as agressões de alunos e encarregados de educação a
docentes estão a estabilizar, mas são necessários mais anos para analisar
a tendência. Hoje, há mais escolas a preencher o formulário mas estes
números não espelham a realidade», diz, por sua vez José Manuel Conceição,
chefe de gabinete do secretário de Estado.
Além do caso específico dos professores, aumentou a violência sobre a
generalidade da população escolar. Os casos de agressões dentro das
escolas contra professores, alunos ou pessoal não-docente relatados ao
Ministério totalizam 3494 o ano passado contra 2997 de 2000.
Perante um drama já vivido por centenas de professores e que todos os dias
é notícia, o Conselho Nacional de Educação (CNE) veio propor esta semana
que, caso sejam vítimas de agressão, os docentes sejam equiparados aos
agentes de segurança. Isso determinaria um agravamento da pena para o
agressor, que poderia chegar até cinco anos.
Participado por representantes de professores, encarregados de educação,
estudantes e partidos políticos, o CNE aprovou na quarta-feira um parecer
com o objectivo de se «restaurar a autoridade dos professores no seio da
sociedade civil e da comunidade educativa». Se o Ministério da Educação
acatar a recomendação daquele órgão, toda a legislação do regime
disciplinar em vigor terá de ser alterada. Um regime que se tem mostrado
incapaz de travar a indisciplina e a violência dentro da escola. Muitos
professores que são alvo de agressões - físicas, verbais e psicológicas -
não chegam sequer a comunicar a queixa ao Ministério da Educação.
Em estado de sítio
Há dois anos, numa reportagem sobre a violência, muitos professores
disseram ao EXPRESSO sentirem-se impotentes e desprotegidos perante as
agressões e muitos admitiram ter vergonha de se queixar.
A ideia dominante era a de que «os meninos e os jovens podem fazer e dizer
o que lhes passar pela cabeça na sala de aula com a maior das impunidades».
Numa escola em Marvila, um professor tinha sido nesse ano internado num
hospital depois de um bando de rapazes e raparigas de 14 e 15 anos ter
irrompido pela sala onde estava a dar aula de matemática e lhe ter partido
os óculos na cara. «Só por me ter tentado defender, a associação de pais
quis sacrificar-me», disse.
Numa escola em Cascais, um rapazinho de 8 anos virou-se para a professora,
que o impedia de bater num colega, e disse-lhe: «Parto-te os cornos e vou
buscar o 'gang' das Marianas para te partir o carro».
Professores e psicólogos atribuem o clima de agressão ao ambiente
económico e social, à desestruturação das famílias. Mas outro factor de
violência nas escolas é o facto de jovens de 15 anos poderem estar numa
turma em que as idades predominantes são os 8, 9 ou 10 anos. Por causa da
escolaridade obrigatória, «os meninos e jovens têm de estar na escola
mesmo que não tenham qualquer motivação ou expectativas», disse uma
psicóloga.
Monica Contreras
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