Expresso- 16 de Fevereiro

Um físico revoltado

José Urbano: aprender é um dever


QUANDO tinha a bola de futebol nos pés, não a via como os outros jogadores. Para ele, era um corpo esférico que se tivesse o «spin» adequado descreveria uma trajectória capaz de enganar o adversário. Era a Física a dar apoio ao desportista. Hoje, com 64 anos, ver futebol não lhe interessa: «Os jogadores arrastam-se, não se empenham». José Dias Urbano - o redactor do manifesto sobre educação que pôs o país a assinar via internet - só gosta de quem se empenha.

É por isso que, mesmo sendo um homem de esquerda, gosta mais de falar de deveres. «A Constituição consagra o direito ao ensino, mas seria bom que impusesse aos estudantes o dever de aprenderem». Custa-lhe, além do mais, que se desperdicem oportunidades. O avô foi obrigado a vender terras para os netos tirarem cursos, o que ele e os seis irmãos conseguiram enquanto o pai dava aulas na instrução primária e a mãe geria uma casa de muita gente. Em época de apertos, os pais destinaram-lhe um pequeno curso de três anos na Academia Militar. Valeu a intervenção de Rómulo de Carvalho para que pudesse seguir as pisadas do físico-poeta.

Sabe-se que as dificuldades unem as famílias, e a do professor doutorado em física nuclear por Oxford não foge à regra. Ainda tem como grande prazer juntar irmãos, filhos e netos na cabana de madeira que ele e a mulher Marta («uma força da natureza») construíram no Cabo Mondego. Na aldeia vizinha é conhecido pelo sr. José.

Só em 1993 assentou definitivamente em Coimbra. Antes, andou pelos Estados Unidos, Canadá e Alemanha, onde pensava aprender a língua de Wagner para lhe entender as óperas. «Viciado» em música clássica, perde-se com Beethoven e Bruckner. Quando a mulher lhe ofereceu os 500 contos necessários à compra da borla e do capelo, gastou-os a mandar vir dos EUA amplificadores de som. Continua a recorrer a trajes emprestados.

Ao Departamento de Física da Universidade de Coimbra, que dirige, chega todos os dias no seu Golf com 13 anos. Tem gosto em aprender e em ensinar e recusa ter qualquer papel de destaque no manifesto sobre a educação, uma iniciativa que reparte com o editor Guilherme Valente e com o seu colega Carlos Fiolhais: «O mal da nossa democracia é toda a gente querer andar em bicos de pés».

Sobre a Educação tem muito a dizer e por isso publicou um primeiro artigo, em 1995, com o título «Grito de revolta num país de faz de conta». Ele revolta-se (aprendeu com o pai que usava os jornais para defender causas e com as movimentações, a que assistiu em 1967, nos EUA, contra o Vietname). Defende os chamados cursos de banda larga, em que advogados aprendem contas e matemáticos estudam leis do Direito. «É uma pena vivermos numa sociedade que nos dá tanto, e tanto tempo, e não sabermos tirar proveito». Talvez um dia escreva um livro sobre o assunto.

Se o convidassem para ministro da Educação não aceitava. «Um ministro tem de ser um político. O que a sociedade civil tem é de se fazer ouvir». Bem gostaria que do manifesto surgisse um «movimento perpétuo» - a utopia que os físicos destruíram.

João Garcia

[anterior]