Ecclesia - 6 de Fevereiro 

O divórcio, os advogados e o Papa

António Marcelino

Na semana passada não faltou por aí quem rasgasse escandalizado as suas vestes, só porque o Papa chamou a atenção para o valor da indissolubilidade conjugal e para a necessidade de ajudar os casais a superarem as dificuldades que vão surgindo no seu dia-a-dia, de modo a evitarem o divórcio.
O discurso, pelo contexto em que foi proferido ‹ abertura do ano judicial no Tribunal da Rota Romana ‹ e porque se dirigia a juízes, auditores e advogados, termina com um apelo directo à gente do direito civil e do mundo da justiça, em geral, para que colabore positivamente nesta causa de tão grande alcance para as pessoas e para a sociedade. E diz mesmo que, agir neste sentido, deve ser considerado por eles como um problema de consciência.
Os diários fantasiaram títulos de primeira página que já estão a provocar protestos e desmentidos de gente implicada, os noticiários abriram dando relevo ao facto e até não faltou uma teóloga a sentenciar que o Papa está a viver na pré-modernidade e a sofrer de uma tradicionalite aguda...
Como já conheço a sinfonia, não me impressionei demasiado e fiquei à espera do texto do discurso que, afinal, estava na Internet desde a primeira hora. A conclusão que pude tirar, desde logo, é que o texto não fora lido ou não o fora sem preconceitos, por quem o comentara e atacara o Papa. Daí as ameaças, as extrapolações, os escândalos e, como é habitual, os renovados ataques ao conservadorismo da Igreja.
Vem ganhando espaço alargado e programado na opinião pública que casamento indissolúvel e estável é coisa ultrapassada e a família como sempre a entendemos, deixou de merecer especial atenção e cuidado. Porém, a gente honesta e de bom senso, qualquer que seja a sua cor política, não esconde as suas preocupações pela maneira aligeirada como se estão a tratar problemas tão sérios como os do casamento e da família, seja pelo poderes legislativos e judiciais, haja em vista a última legislação sobre o divórcio sancionado numa qualquer Conservatória do Registo Civil, seja por alguma gente da comunicação social, que não gasta tempo a ler e a estudar e se faz eco fácil das opiniões simpáticas que satisfazem o público superficial e comprometido.
O Papa não precisa que ninguém o defenda. Ele é das poucas vozes serenas, mas firmes, que não procura conquistar simpatias, nem teme perdê-las. E a gente que pensa, ainda que seja religiosamente agnóstica, e sabe que, sem valores, a vida perde o seu sentido, não deixa de louvar e de agradecer a sua coragem de militante convicto e necessário.
Não há comparação possível entre o que pode resultar de libertação de um divórcio inevitável e os estragos, sofrimentos, destroços e traumas de milhares de outros que seriam perfeitamente evitáveis se, no caminho de uma crise conjugal, tivesse surgido um familiar, um amigo, um advogado, um juiz, um padre, a estimular o valor do perdão, da reconciliação, do amor, da capacidade de superação das dificuldades, da convicção de que os filhos não se dividem e do seu direito, por inteiro, ao pai e à mãe.
A unidade e a indissolubilidade do casamento é um bem para os esposos, para os filhos, para a sociedade. Foram estes valores que o Papa afirmou, defendeu e apelou para que se ajudem e se defendam.
Onde está o mal? A quem incomodam estas palavras? Quem, entre nós, está interessado em que o Papa se cale e a Igreja se desvincule dos seus deveres e convicções? Quem?

[anterior]