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Diário de Notícias - 9 de Fevereiro
Hipocrisia
Helena Sacadura Cabral
É uma história triste. Começa no século passado. Tem o
seu epílogo no século XXI. Envolve dois adultos. Um é príncipe. A outra
é plebeia. Apaixonam-se em Sevilha. Eis a típica telenovela mexicana. Em
horário seminobre. Como convém a contos de meia nobreza. Juntem-se-lhe
uns laivos de sexo, política e tango argentino e temos a nossa crónica.
A cena decorre numa Holanda democrática cuja tolerância a torna pioneira
da despenalização do consumo de drogas e do "suicídio assistido".
Tolerância que, aliás, no passado, a obriga a "engolir" um alemão para
pai do seu futuro rei. Que é o protagonista deste caso. Aproveito para
relembrar, apenas por curiosidade histórica, que a Alemanha não seria,
com certeza, à época, a mais desejável aliada dos Países Baixos...
A protagonista, Maxima Zorreguieta, tem o sumo azar, pasme-se, de nascer
de um pai ministro do ditador Videla. Calcula-se o atroz sofrimento da
jovem argentina para se libertar da nefanda influência paterna. Mas
todos sabemos como, às vezes, a história pode ser omissa nos traumas da
formação do carácter dos jovens democratas...
O pai está na cadeia? Não. A mãe é perseguida e morre à fome? Não. A
Argentina expulsa a família? Não. Os tribunais julgam o clã? Não. Então
porque terei eu decidido pegar neste caso, sem graça particular, tanto
mais que não fui convidada para o casamento? Terei virado monárquica?
Não. É-me relativamente indiferente viver numa monarquia constitucional
ou numa república, por mais politicamente incorrecta que esta afirmação
possa ser. O que exijo a um rei é exactamente o mesmo que exijo a um
presidente: competência, contenção despesista e devoção à causa pública.
E, com os anos de vida que já levo, vai-me sobrando alguma autoridade
para afirmar que uns e outros me têm causado inesperadas desilusões...
Mas voltemos à historieta e às inefáveis razões que a ela me levaram. É
que há, aqui, dois pontos a que sou particularmente sensível. Um deles é
que não tolero maus filhos. Ora nesta medíocre novela choca-me que uma
filha renegue o pai e consinta na pública expulsão do mesmo do seu
casamento, acatando a decisão de um país que, não sendo ainda o seu, se
arroga definir o que nem os tribunais da sua própria pátria haviam
deliberado. O outro aspecto que me incomoda é que um Estado tão
tolerante e democrático em relação às liberdades individuais não sinta
que está a ultrapassar os limites da sua cidadania e a dar ao mundo um
estranho exemplo de hipocrisia.
Já agora gostaria de saber o que pensam a Holanda e a futura rainha
fazer em relação a eventuais netos. Vão proibi-los de ver o avô? Como?
Com que autoridade? Como irá esta angélica criatura explicar aos filhos
o que fez ao próprio pai? De que hábil e colorida história fará
beneficiar o germânico ascendente? Tudo isto sem qualquer vergonha?
Ah!, quanto à protagonista, esqueci-me de dizer que ela é loura. O que,
como se sabe, nos tempos que correm, e em certos países, é absolutamente
suficiente para forjar uma rainha.
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