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Diário de Notícias - 7 de Fevereiro
Aprendentes, tremei!
Francisco José Viegas (*)
Durante esta semana, a TSF e o "Diário de Notícias", em conjunto,
preocupam-se com a educação. Com o estado das escolas, com a qualidade do
ensino, com a prestação dos professores. E basta ouvir o fórum da TSF para
perceber que o País mudou substancialmente. Aqui há anos, não sei se se
recordam, houve um escândalo quando uma direcção-geral (creio que a DREN)
chamou a atenção de um professor para o estado em que ele se apresentava
na sala de aulas _ de calções, camisa de fora, sandálias. Acho que os
alunos chamaram àquilo um petisco, o que se compreende _ no meu tempo, as
professoras passavam a ser sensatas à segunda vez que se apresentavam de
mini-saia. Como miúdos, éramos muito conservadores, sensatos antes do
tempo, dávamos razão a tudo o que era conservador. Mas, neste caso do
professor de calções, houve uma barulheira, alimentada por dezenas de
colegas que escreveram para o "Público" em defesa do inalienável direito
de os professores se apresentarem na saula de aula vestidos como
entendessem e praticamente chamando "fascista!" à direcção-geral e ao
ministério. Vista de fora, a situação é caricata, concordo: como se pode
proibir um professor de vestir seja o que for? Mas, a partir da sala de
aula, a questão adquire mais colorido _ já se sabe que os miúdos não
perdem uma oportunidade de castigar os desvarios dos professores, estão
ali para vigiá-los, para castigá-los e para os enfrentarem, se preciso
for.
Acredito que, passados dois ou três anos, a situação não se repetiria, ou
seja: não teríamos os protestos indignados "dos colegas" nem o seu ar
escandalizado e compungido diante do reaccionarismo do Mundo.
Basta ouvir o fórum da TSF para perceber que isso mudou _ onde, há uns
tempos, se escutavam discursos grandiloquentes sobre pedagogia, cidadania
na escola, a valorização dos "aprendentes" ("aprendentes"!, juro que ouvi
um cavalheiro a falar assim dos alunos!), a participação da "comunidade
educativa" (toda a gente, valha a verdade) e mais uma interminável série
de lugares-comuns, banalidades e desconchavos sobre ensino e tratamento
dos meninos e dos seus mestres, há agora uma conversa totalmente
diferente. Eu cito, do conjunto de expressões que ouvi na rádio:
autoridade, disciplina, conhecimento, exigência, rigor, excelência,
reposição da autoridade (aparece sempre alguém a lembrar que "atenção!,
não se trata de autoritarismo!", como se não soubéssemos a diferença). Há
aqui uma diferença. Outro dia, um professor de uma "escola difícil"
queixava-se da indisciplina dos miúdos e dos duplos critérios que o
ministério usava _ se um aluno era "molestado" pelo professor (do género:
pô-lo na rua se estava a aterrorizar uma sala de aula ou se ameaçava um
colega com pancada), no dia seguinte tinha uma queixa à perna e, até, um
advogado do miúdo à porta da escola; se um aluno furava os pneus do carro
do professor, se o agredia com um bastão ou à bofetada, se o insultava na
sala, o ministério pedia um inquérito, um "técnico pedagógico" recebia a
queixa e teorizava sobre a matéria. Uns meses depois, o ministério
arquivava o assunto. De facto, reprimendas aos alunos e penas para miúdos
indisciplinados? Que exagero, que brutalidade e que reaccionarismo.
Hoje, o discurso é diferente, substancialmente diferente. Compreendo.
Tivemos técnicos superiores e secretários de Estado que passaram a vida a
desculpar excessos e a ser ainda mais compreensivos do que eu;
especialistas em pedagogia e psicopedagogia apostaram que eram capazes de
fazer desesperar qualquer conselho directivo e qualquer professor que não
gostasse de andar a apanhar; isto tinha de acabar. Tinha de acabar em
matéria de disciplina (que é um problema real, como se sabe hoje) e em
matéria de competência pedagógica das escolas e dos alunos. Hoje, fala-se
de avaliar os alunos e os professores (perdão, o ministério _ cada vez que
penso naquele cavalheiro a usar a expressão "aprendentes" farto-me de rir
_ fala de "aferição" porque tem medo da palavra "avaliação"). Fala-se de
exigência, de esforço, de trabalho. Diz-se, já, claramente, que os alunos
têm de esforçar-se por aprender _ que escândalo. Diz-se, inclusive
(tremei, ó rinocerontes do politicamente correcto!), que se devem tomar
medidas acerca dos alunos que ostensivamente chumbam ou têm más
avaliações. Para cúmulo, assumiu-se (depois de anos de um insuportável
laxismo e de uma verborreia abominável sobre o apaparicanço dos "aprendentes")
que os resultados a Português e Matemática são fundamentais. E que é
necessário prestar atenção ao ensino das ciências. E que quem não trabalha
não merece recompensa. De vez em quando, o meu país surpreende-me. Eu, que
esperava que os "colegas" que defenderam o pobre do professor que apareceu
de sandálias, "shorts" e camisa de fora numa sala de aula viessem agora
manifestar-se pelo direito de os alunos não estudarem Matemática ("porque
é chato e assim a gente não estuda", dizia uma jovem estudante num
inquérito do "Diário de Notícias") ou a mastigarem pastilha elástica, dou
com quase toda a gente a pedir contas ao destino e a ter tento na língua.
Tremei, "aprendentes"! O Mundo não está para graças. Todos temos de
prestar contas.
(*) Escritor, escreve no JN, semanalmente, às quintas-feiras
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