Diário de Notícias - 16 de Fevereiro

Brincadeiras na República
Ricardo Leite Pinto

Um grupo de cidadãos lembrou-se de divulgar um manifesto acerca da educação em Portugal, intitulado Manifesto para a Educação da República. Nele se pode ler que Portugal se afasta dos "padrões civilizacionais dos países com os quais decidiu partilhar o futuro comum", que é necessário um sistema que "forme intelectualmente e qualifique os portugueses" e conclui pedindo ao sr. Presidente da República que contribua para a construção desse sistema. Entre os problemas que os subscritores do manifesto entendem dever ser tratados de modo coerente estão, entre outros, "a avaliação do desempenho dos estudantes, dos professores e das escolas".

O texto, dizem os jornais, já foi subscrito por largos milhares de portugueses, embora tenha havido "brincalhões a usurpar a identidade de personalidades destacadas".

Com o devido respeito pelos verdadeiros subscritores do documento, eu compreendo os brincalhões. O manifesto não é para levar a sério.

Falar de um sistema que forme intelectualmente os portugueses e convidar, de seguida, o Presidente da República para capitanear a iniciativa é, reconheça-se, bizarro. Na forma e no conteúdo.

Na forma, porque não se descortina por que modo o Presidente da República, com os poderes constitucionais que tem, possa liderar a criação do tal sistema (qual ele seja). Das duas uma: ou tudo se convola num congresso de especialistas, sob o olhar interessado do Chefe de Estado, à semelhança de muitos que nos últimos anos têm surgido, onde dezenas de peritos expõem o "seu" sistema para a educação, ou temos o dr. Sampaio em versão presidencialista a atropelar com o seu único e maravilhoso "sistema" o Governo e a Assembleia da República.

Em ambos os casos a República sairá enxovalhada.

Mas o ponto principal está no conteúdo do manifesto, o qual, com o devido respeito por alguns dos subscritores que alegadamente o teriam assinado (e que não se assumiram como brincalhões) , erra o alvo. O problema da educação da República começa por ser um problema da educação dos cidadãos.

A República só o é se constituir uma comunidade de cidadãos livres e responsáveis. E ao falarmos de escolas não podemos falar apenas de alunos e professores e deixar os pais à porta. Primeiro está a educação para a cidadania e essa começa em casa. A escola não é uma maquinaria, observada à distância, sujeita a testes de desempenho para aferir do rigor e da exigência. As tais "elites" formadas em "contextos educativos de maior exigência" que o manifesto pretende mobilizar sabem muito bem que nesses países a educação começa em casa e que se os pais (a família, em geral) falham nessa difícil tarefa não há escola que os substitua.

Pode a escolar ensinar a virtude? Pode a virtude ser imposta por lei? É uma discussão velha de séculos e sem resposta convincente. Mas o que é certo é que na educação da República nada substitui a família. É claro que isso não é um problema do sistema educativo, nem o sistema educativo o resolve, por si só. É um problema de cultura e uma exigência moral. O manifesto esqueceu-se disso.

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