Correio da Manhã - 21 de FevereiroFALTA A
PORTUGAL UM MILHÃO DE CRIANÇAS
Falta um milhão de crianças e jovens para assegurar a renovação das
gerações em Portugal. Este alerta foi lançado durante o seminário "Apostar
na Família, Construir o Futuro", que decorreu ontem num hotel da capital,
por iniciativa da Associação Portuguesa de Famílias Numerosas (APFN). Tal
défice - como explicou Manuel Nazaré, especialista em Demografia - é
resultado de, anualmente, nas últimas duas décadas, se terem registado, em
média, menos 50 mil nascimentos em relação aos necessários para assegurar
a substituição do casal - dois filhos. De acordo com a informação
estatística disponível, cada casal português não vai hoje além de 1,5
filhos, quando, só para 'tomar o lugar da mãe e do pai' seria necessário
um índice mínimo de 2,1. "Isto significa que o Estado terá de convencer um
em cada dois casais a ter mais um filho", interpretou Fernando Castro,
presidente da APFN. No documento "Apostar na Família, Construir o Futuro",
divulgado ontem, aquela associação reuniu uma série de medidas aos níveis
da fiscalidade, saúde, educação, habitação, trabalho, transporte e
segurança social tidas por susceptíveis de contribuir nesse sentido.
Política desastrosa
Entre tais medidas Fernando Castro destacou ao Correio da Manhã "o
empenho pessoal do primeiro-ministro para que exista uma política de
família eficaz e transversal a todos os ministérios, em vez de
concentrar-se num único". Não desagrada à APFN a criação de um ministério
específico, mas isso não é considerado essencial. No entender de Fernando
Castro, a política para a família nos anos seguintes ao 25 de Abril tem
sido "desastrosa", multiplicando-se "os indicadores negativos: crescimento
da taxa de divórcio, diminuição da taxa de nupcialidade e baixa taxa de
natalidade". Perante tais alertas, o poder "nada faz" porque "está
narcotizado em politicamente correcto e é politicamente incorrecto falar
sobre família", criticou o presidente da Associação Portuguesa de Famílias
Numerosas, aquelas que têm pelo menos três filhos ao cuidado, sendo que
este conceito pode abranger também a assistência aos mais velhos, pais e
sogros.
Imigração não é solução
No mesmo tom crítico Paulo Neves, interveniente a propósito dos
aspectos demográficos, resumiu a problemática das famílias numerosas - são
cerca de 250 mil em Portugal, ou seja, 7 por cento do total - nestes
termos: "Quantos mais filhos se tem, mais se paga e de menos direitos se
usufrui." Embora o futuro demográfico português não pareça famoso, a
inversão da tendência não passa, segundo foi defendido durante o
seminário, pelo reforço da imigração, mesmo porque, disse Paulo Neves, "a
situação dos imigrantes, que estão sozinhos e desenraizados no nosso País,
é vergonhosa se tivermos em conta uma verdadeira política de família".
Também para Fernando Castro, "a imigração não é solução", embora, a prazo,
possa servir para manter os sistemas sociais. Mesmo assim, aquele
dirigente desconfia do ministro do Trabalho e Solidariedade Social, Paulo
Pedroso, "quando este afirma que a Segurança Social vai manter-se até
2040." "Não é verdade. Com este ritmo demográfico, existindo cada vez mais
população não activa e menos gente a trabalhar não é possível", contrapôs.
Aquele responsável defendeu uma solução 'à francesa', com recurso a
incentivos fiscais e apoios directos aos casais. "O número de nascimentos
cresceu em poucos anos e actualmente existe uma florescente indústria de
artigos ligados às crianças", afirmou sobre a França, exemplo de que "a
política de família não tem nada a ver com a direita ou a esquerda".
Investimento
Durante o debate sobre Demografia foi notado o aparente paradoxo dos
países do Norte da Europa, onde o nível de vida é dos mais elevados e,
mesmo assim, os casais optam por não ter filhos. Em jeito de comentário,
Fernando Castro notou que "viver bem não deriva unicamente de se ter
acesso a bens materiais", nem "a riqueza significa felicidade". Disse, no
entanto, estar absolutamente seguro de que só por meio da concessão de
apoios às famílias é possível prevenir, ou combater, a desagregação do
tecido social. "Famílias mais protegidas resultam em menos encargos com a
saúde, por exemplo, porque as pessoas não precisam tanto dos hospitais",
notou, referindo-se ainda à prevenção do alcoolismo, da delinquência
juvenil e da sexualidade precoce. Por isso, sublinhou o mesmo responsável,
"o apoio à família não reveste a forma de gasto, mas de investimento na
prevenção de fenómenos negativos".
Isabel Ramos