Angústias de dois casos numerosos no Minho
Filhos de Uma Pobreza Sem Fim

Por TERESA LIMA
Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 2000

FotoPelas nove e meia da manhã, o café do bairro social das Andorinhas, em Braga, mais parece o lugar de uma reunião secreta de mulheres. Todos os dias, elas encontram-se para o sagrado cafezinho e ali ficam durante uma ou duas horas. O que estas mulheres (que serão aqui retratadas com nomes fictícios) têm em comum é a mesma história de pobreza, de filhos que nascem sem parar e de relações conjugais falhadas.

Júlia levanta todo o seu peso da cadeira do café para contar que tem oito filhos, quatro rapazes e quatro raparigas, o mais novo com seis anos e dois deles já casados. "Eu já fui dizer à câmara [de Braga] que preciso de mais um quarto", conta. O mal é geral. Todas as outras mulheres têm algum tipo de novidade do mesmo género. As famílias são grandes, os apartamentos pequenos. "Elas [as assistentes sociais] já viram como o meu filho de 30 anos dorme, no sofá", reclama Júlia. Dois filhos já têm vida própria: para o mal ou para o bem, estão casados, carregam o seu próprio peso. O mais pequeno ainda tem muito que aprender. O companheiro responsável por uma parte da prole, desapareceu do mapa, enquanto o marido, que lhe deu os restantes filhos, morreu.

Contada assim, de repente, sem demasiados pormenores, a vida de Júlia não é muito diferente da das restantes mulheres do bairro. Maria, que tem, tal como Júlia, mais de 40 anos, também vive sozinha com três filhos. Tinha um companheiro que "estava" com ela mas "não estava" de facto com ela. Ou seja, não morava na mesma casa. Há quinze anos que vive no bairro. Já trabalhou, mas "um problema num pé" foi o suficiente para largar o emprego na autarquia local e ficar a viver do rendimento mínimo, que "é pouquinho, mas dá para o café".

Madalena tem uma vida mais estável. Encontrámo-la em casa a tratar do almoço. Não trabalha: o rendimento mínimo também chegou a esta família. O sustento da casa é garantido pelo subsídio do Estado e pelo trabalho do marido. Os seus três filhos (dois rapazes e uma rapariga) ficam por casa até meio da tarde (nenhum deles tem idade para ir para a escola), altura em que são levados para a sala do ATL (Actividades de Tempos Livres) do bairro.

Madalena teve mais dois filhos, mas um morreu com poucos meses e o outro caiu num tanque com água e afogou-se. "É assim a vida de pobre", resume a mulher. Antes de ter direito a uma habitação social, vivia num barraco. De há cinco anos para cá, tem uma casa com dois quartos, mas uma terceira gravidez apanhou-a desprevenida. Quando ficou grávida de uma menina que tem agora dois anos, chorou até lhe secarem as lágrimas. Depois disso, para se prevenir, passou a tomar a pílula e só lamenta que os dois quartos que tem não sejam suficientes para o agregado.

Teresa Lima