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Educação: enfrentar o sistema de irresponsabilidade
Joaquim Azevedo
Num "sistema de irresponsabilidade" existem agentes
responsáveis, que actuam ao melhor nível de desempenho
possível. A sua acção, no entanto, está bloqueada e
geralmente
vê a sua eficácia esboroar-se em teias burocráticas
O sistema educativo português é corroído
por um "sistema de irresponsabilidade". Tal situação
resulta, entre outros factores, de uma generalizada
indefinição de responsabilidades, do cruzamento de
diferentes níveis sobrepostos e redundantes de intervenção,
da existência de normas que não se cumprem e que se sabe que
existem para não serem cumpridas, por nele intervirem vários
actores sociais, em posições de conflito de interesses e,
ainda, porque o poder se encontra concentrado onde é mal
exercido.
Tomemos um exemplo: os maus resultados dos alunos numa dada
escola. Quem é o responsável? O director executivo, que
remete para os seus superiores? O departamento curricular,
que diz receber orientações do Ministério da Educação (ME) e
que os pais não apoiam os filhos? A associação de pais, que
afirma que a escola não consegue educar? A direcção regional
de Educação, que reclama que as ordens são centrais? Os
serviços centrais e as suas orientações constantes e
constantemente diferentes? A equipa ministerial, que acaba
de chegar ou está de partida? A culpa é sempre do "sistema"!
E, se, por acaso, os problemas teimarem em subsistir (o que
é frequente), lá virá mais uma lei para os resolver, na
senda da "juridização da sociedade", hábito crónico entre
nós.
Diga-se, desde já, que num "sistema de irresponsabilidade"
existem agentes responsáveis, que actuam ao melhor nível de
desempenho possível. A sua acção, no entanto, está bloqueada
e geralmente vê a sua eficácia esboroar-se em teias
burocráticas, na ausência de avaliação, numa dependência
doentia das ordens externas, além de estar rodeada por
"exemplos" da maior irresponsabilidade, a quem nada ocorre a
não ser... a indiferença e até a progressão automática.
Também a esta luz podem ser lidas as recentes medidas do ME,
nomeadamente as que se referem à gestão do tempo dos
professores nas escolas. Para lá da pertinência genérica das
medidas, é fundamental meditar sobre quais os resultados
previsíveis da colocação de pressão social e governativa
sobre alguns dos agentes de um sistema onde domina a
irresponsabilidade. O desejado apoio "popular" às medidas
está garantido. Tenho, no entanto, sérias dúvidas sobre a
sua eficácia.
Vejamos em concreto. No centro da sua aplicação está a
figura do director executivo de cada escola ou agrupamento
de escolas. Ora quem é este director executivo? É um refém,
completamente irresponsável (no mesmo sentido sistémico).
Refém da norma. Tantas vezes os pais reclamam sobre as
faltas contínuas dadas por alguns professores e a resposta
do director executivo é sempre a mesma: "Eles estão a
cumprir a lei, "está tudo legal", nada posso fazer!" As
responsabilidades morrem aqui. Refém dos colegas. Esta
figura central no governo do sistema educativo é eleita
pelos colegas professores, que são sempre maioritários nos
órgãos de decisão, que a destituirão na primeira
oportunidade, caso não lhes agrade.
Refém da não-gestão dos recursos. O director executivo não
pode contratar os professores, nem os pode avaliar, não pode
premiar o mérito, não pode reafectar os docentes de que a
escola dispõe (que cada ano podem oscilar em graus
variáveis), não é dono dos recursos da escola.
Existem, importa dizê-lo sempre, escolas onde professores
directores executivos se dedicam à causa pública e à
qualidade da educação de modo inexcedível. Mas isso nada
retira à matriz do cargo que exercem (refém e
irresponsável), o que só pode acrescentar valor à sua
dedicação, coisa que a sociedade portuguesa prefere ignorar.
Acresce que a figura do director executivo é refém e
irresponsável dentro de um modelo de administração
educacional que instituiu a "autonomia" de cada escola e
que, na prática, labora sobre o centralismo iluminado da
administração pública portuguesa. Devidamente actualizado, o
Estado passou assim a poder responsabilizar os directores
executivos pelo que se passa em cada escola. Tudo se prevê a
priori, nada se avalia a posteriori. O resultado? Os
resultados estão à vista e há muito tempo. Mas onde pode
desaguar este "sistema de responsabilidade" onde nada se
avalia, o mérito não se premeia e só a mediocridade pode ser
elevada a norma de excelência?
Teimamos em não corrigir o caminho. Do ME há-de vir sempre a
iluminação das medidas mais certas, mais justas, mais
adequadas para cada uma das escolas, espalhadas por todo o
país. É o único paradigma de acção política no campo da
educação que conhecemos. Entretanto, as escolas, cada
escola, com a sua especificidade, continua na periferia das
mudanças, às escuras, aplicando normas e mais normas, sempre
dentro da legalidade, sempre dentro de um "sistema de
irresponsabilidade". Sempre a mudar, raramente a melhorar.
De facto, há anos que as políticas educativas dos sucessivos
governos têm privilegiado a mudança em detrimento da
melhoria. Ora, estes caminhos são muito distintos. O
paradigma da mudança repousa na iluminação dos detentores
momentâneos do poder que, possuídos de uma divinal chama,
decretam e despacham a toda a hora as mudanças. E estas
ocorrem, fatalmente, no dia decretado. Por sua vez, o
paradigma da melhoria assenta numa acção humilde,
determinada e persistente de cada escola, envolvendo
sobretudo professores, alunos e pais que, partindo da
análise das suas fragilidades e potencialidades, ousam
estabelecer e percorrer compromissos de melhoria gradual. A
primeira via gera irresponsabilidade, a segunda sustenta-se
na responsabilidade.
Ora, a governabilidade do sistema educativo não se poderá
vir a assegurar com relâmpagos que tudo iluminam, mas que
logo desaparecem, deixando de novo tudo às escuras, noite
após noite, década após década. Há caminhos bem mais duros
de trilhar, mas que podem ir construindo melhor ensino e
melhores aprendizagens, sob o signo da liberdade e da
responsabilidade.
Falo de autonomia real das escolas, devidamente
contratualizada, desenvolvida num quadro de rigorosa
avaliação interna e externa e de definição de
responsabilidades (o mesmo ME, que também tutela as escolas
profissionais, tem nelas um exemplo português de como todas
as aulas previstas são dadas, de como a contratação de
professores pela escola não é cataclismo nenhum, de como se
pode avaliar o desempenho de professores e de directores, de
como se pode gerir com autonomia os recursos de uma escola e
de como, assim fazendo, se pode alcançar maior sucesso
escolar); falo de gestão profissional das escolas, feita por
professores, seleccionados em concurso nacional de
pré-qualificação, de directores executivos devidamente
remunerados, a quem se possam pedir responsabilidades; falo
de uma administração educacional completamente reestruturada,
construída sobre o modelo de agências nacionais e devotadas
ao apoio permanente e eficaz à melhoria do desempenho das
escolas e dos professores (salvo a Inspecção de Educação);
falo de um quadro de revalorização das melhores práticas de
educação e ensino, de gestão e de desempenho profissional,
um quadro de apoio às escolas com maiores dificuldades, de
incentivos às melhores práticas e de correcção de
assimetrias; falo da diversidade de escolas e de contextos,
que não podem continuar a ser tratados uniformemente e no
modelo da irresponsabilidade.
O problema central da educação em Portugal é político,
apesar de o tentarmos negar, e como problema político é mais
simples e ao mesmo tempo mais complexa a sua resolução.
Enquanto aqueles docentes que se dedicam tiverem, por parte
dos directores executivos, o mesmo prémio que os que mais
faltam, enquanto os directores executivos estiverem
prisioneiros da subserviência, da verificação da
conformidade com a norma e da legitimidade fundada nos
colegas, enquanto os professores e as suas competências não
forem tomados como parte da solução e não apenas do
problema, enquanto se tapam os "furos", mas não se altera o
quadro que incentiva os absentistas, estamos a endireitar a
sombra de uma vara torta. As escolas precisam de se
concentrar na sua missão de ensinar bem e de fazer aprender
bem, construindo compromissos de melhoria gradual,
avaliando-os e corrigindo-os, com muito trabalho, contando
com a confiança da administração educacional e da sociedade.
Professor universitário e membro do CNE
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