O Estado laico
deve assumir uma posição neutra ante as religiões,
tal como deve assumir uma posição neutra ante as
candidaturas presidenciais. Mas essa atitude não
implica que deva proibir a entrada dos candidatos na
escola pública ou, mais tonto, diga que o PR não
existe.
As pequenas coisas revelam mais
que as grandes. Os jornais estão a tentar criar uma
zanga à volta da retirada dos crucifixos das escolas
públicas.
Não interessam os contornos concretos da intriga,
mas vários responsáveis afirmam que isso é uma
exigência da lei que garante a laicidade do Estado.
"Não se trata de nenhuma ofensiva contra os
católicos", afirmam, mas simples "respeito pela
diferença". De facto, não se trata de uma ofensiva
contra os católicos, mas contra a liberdade de
pensamento e expressão.
A laicidade do Estado é um dos valores mais
importantes da democracia. Numa sociedade aberta e
pluralista, a neutralidade pública perante as
religiões e culturas constitui um pilar central da
vida comunitária.
Ultimamente revelou-se mesmo vital e decisiva, em
tantos tristes exemplos mundiais.
A falta de liberdade religiosa tem gerado a perda da
liberdade e até da vida.
Laicidade, porém, nada tem a ver com laicismo. A
primeira afirma a imparcialidade pública perante as
religiões. O segundo, pelo contrário, constitui uma
posição religiosa específica.
Nunca se deve esquecer que, dada a impossibilidade
lógica de demonstrar a inexistência de Deus, o
ateísmo é apenas a crença de que Deus não existe.
A recusa da divindade é uma fé, tal como o negro
está na pintura e a pausa faz parte da música.
Aliás, constitui uma seita das mais pequenas, que,
por isso mesmo, costuma ser extremista e fanática.
O Estado laico deve assumir uma posição neutra
perante as religiões, tal como deve assumir uma
posição neutra perante as candidaturas
presidenciais.
Mas essa atitude não implica que deva proibir a
entrada dos candidatos na escola pública ou, mais
tonto ainda, que tenha de dizer que o Presidente da
República não existe. O mesmo se passa na fé.
Laicidade não é recusa de Deus e ausência de
religião, mas liberdade de religião.
Deus está na escola, tal como a cultura está na
escola, a política, a arte, o futebol e a amizade
estão na escola.
O que os poderes públicos devem garantir é a
autonomia para cada escola fazer o que os seus
professores, pais e alunos decidam. É isso a
neutralidade.
O facto de a escola ser pública apenas indica que é
paga pelos impostos de todos.
Como os contribuintes são, na sua esmagadora
maioria, cristãos, tal como os professores e alunos,
é normal que haja crucifixos nas salas de aulas.
Mas também pode ser normal, se a escola quiser, que
ele esteja ausente ou seja substituído por outros
símbolos adequados à comunidade escolar. Sobretudo,
não são activistas ou burocratas a centenas de
quilómetros que têm o direito de definir a decoração
das paredes, em vez dos alunos, famílias,
professores e funcionários.
Acaba de ser publicada pela Gradiva uma excelente
reflexão sobre este problema, no livro Rousseau e
Outros Cinco Inimigos da Liberdade, de Isaiah
Berlin. As conferências que o constituem têm mais de
50 anos e tratam de teorias com mais de 200. Mas é
incrível que ainda hoje, em nome da liberdade,
alguns pretendem impor a sua opinião particular a
todos. Esta terrível armadilha, de que Berlin é um
dos maiores opositores, esteve na base dos grandes
desastres do século passado. Mas permanece bem viva,
como se vê.
Num país livre pode ser-se ateu ou religioso. Mas,
em nome da liberdade, os laicistas arrogam-se o
direito de obrigar as escolas a seguir os seus
gostos e irritações pessoais.
Um pequeno grupo arma-se em juiz de todos os cultos,
só porque não segue nenhum e os considera horríveis
a todos. Como odeia a religião diz-se neutro perante
ela. Equivale a afirmar que os bons árbitros são os
que abominem o futebol ou que só vegetarianos sabem
gerir um talho. Como é possível tal tolice manter
tanta credibilidade intelectual e política?!
Os crucifixos na sala de aula são apenas um pequeno
detalhe. Mas um detalhe revelador de uma luta
crucial da Humanidade, a luta em prol da liberdade.
O Ministério da Educação, em vez do esforço baldado
para tirar Deus das escolas, devia antes procurar
pôr algum bom senso nelas.