Público - 02
Dez 05
O CÉU NÃO NOS VAI CAIR EM CIMA DA CABEÇA
A subida das taxas de juro vai ser um
"aperto" para as famílias portuguesas, cujo
endividamento atinge níveis recorde; mas ainda
há margem para o aumento
Na década de 90, o
endividamento das famílias portuguesas disparou.
Passou de 38,5 por cento do seu rendimento
disponível há dez anos para uma estimativa de
125,2 por cento em 2005.
Este aumento foi estimulado essencialmente pelo
acesso ao crédito barato: com taxas de juro
baixas, muitos portugueses endividaram-se para
comprar casa. E, agora que as taxas de juro
subiram, como é que irão cumprir as suas
obrigações?
Com mais ou menos dificuldade, mas não há o
risco de o céu nos cair em cima da cabeça. O
endividamento dos portugueses disparou; mas esse
endividamento é garantido por um aumento do
património.
É verdade que o endividamento aumentou, mas "o
património líquido de endividamento registou uma
evolução positiva", lê-se num artigo do boletim
económico de Outono do Banco de Portugal.
Num outro trabalho dos técnicos do Banco,
publicado no ano passado, lia-se que a taxa de
esforço - a percentagem do rendimento das
famílias dedicada ao serviço da dívida - não
aumentou significativamente nos anos 90.
Ou seja: as famílias portuguesas estão muito
endividadadas, mas a dívida está quase toda
ligada à casa (quase 80 por cento dos "passivos"
das famílias referem-se ao crédito à habitação).
Como o rendimento disponível tem crescido (mesmo
em 2003, ano de recessão), ainda têm margem de
manobra para lidar com um aumento das taxas de
juro.
O peso das dívidas à banca ligadas ao crédito à
habitação aumentou muito no período de uma
década: de 15,6 por cento do produto interno
bruto (PIB) em 1994 para mais de 50 por cento em
2003. Mesmo assim, este valor ainda é inferior
ao de outros países europeus - por exemplo, o
Reino Unido (onde o valor das hipotecas
representa 70 por cento do PIB) ou a Holanda
(quase 100 por cento do PIB).
De resto, na última década o aumento do
endividamento não significou o aumento dos
créditos malparados. O negócio do crédito à
habitação é dos mais seguros para a banca: a
taxa de incumprimento neste sector foi de apenas
1,5 por cento em 2004 (uma redução de 0,1 pontos
em relação ao ano anterior).
Mas há riscos neste panorama. As últimas
famílias a entrar na "explosão" do crédito à
habitação são precisamente as mais expostas ao
risco do aumento das taxas - as mais jovens e
com níveis de rendimento mais baixos.
Num artigo publicado no mês passado, o PÚBLICO
dava conta do aumento do número de pedidos de
ajuda ao Gabinete de Apoio ao Sobreendividado da
Deco - houve 571 famílias a recorrer a este
serviço de Janeiro a Setembro deste ano.
Quem está mais em risco de cair numa situação de
sobreendividamento são as famílias que acumulam
vários tipos de dívidas (crédito à habitação, ao
consumo, dívidas a fornecedores de serviços como
luz e água) e a quem acontecem choques
imprevistos - especialmente o desemprego. P.R