Correio da Manhã
- 01 Dez 05
Natalidade
José Luís Ramos Pinheiro
A preocupação obsessiva de alargar o número
de situações em que o aborto é legalmente
admissível reflecte a mesma tendência: aumentar
a possibilidade de limitar os nascimentos,
mantendo um comportamento que parte do
lamentável princípio de que um filho, até
nascer, é mera extensão do corpo da mãe e,
portanto, propriedade sua.
O Presidente da República
manifestou a sua preocupação pelo envelhecimento
do País, decorrente da quebra da natalidade. É
um alerta compreensível do Presidente dada a
gravidade da questão, mas só peca por tardio.
Portugal e muitos outros países europeus
apresentam, desde há anos, quebras sensíveis de
natalidade, como consequência de uma mentalidade
virada para o conforto e para a satisfação de
necessidades imediatas. Nesse jogo de
conveniências, o consumo vai ganhando terreno e
os filhos são implicitamente considerados como
obstáculos à livre fruição da vida.
À mentalidade consumista somam-se as
dificuldades económicas: umas reais e notórias,
outras menos. Mas todas servem de motivo ou
pretexto para diminuir o número de nascimentos.
A preocupação obsessiva de alargar o número de
situações em que o aborto é legalmente
admissível reflecte a mesma tendência: aumentar
a possibilidade de limitar os nascimentos,
mantendo um comportamento que parte do
lamentável princípio de que um filho, até
nascer, é mera extensão do corpo da mãe e,
portanto, propriedade sua.
Em todo este contexto cultural, social e
económico, não é de estranhar a descida da
natalidade. O contrário é que seria estranho.
A falta de renovação das gerações implicará para
o País sérias consequências, até porque este
factor se associa ao aumento da esperança de
vida. A prazo, um número decrescente de
portugueses, em idade útil de trabalho,
sustentará um número crescente de portugueses,
em idade de reforma. Neste quadro, a
sustentabilidade da Segurança Social é, no
mínimo, discutível.
Pelo contrário, os imigrantes que nos procuram
apresentam, frequentemente, maiores índices de
natalidade. Também neste ponto aumenta a nossa
dependência dos fluxos de imigração, que já era
evidente, por exemplo, no mercado de emprego. Os
imigrantes vão desempenhando trabalhos que os
portugueses parecem achar indignos e aos quais
só relutantemente se candidatam.
Esta é mais uma daquelas questões que vale a
pena debater a sério, sensibilizando a sociedade
portuguesa para a actual situação e
desencadeando um outro olhar sobre a natalidade.
Para que daqui a mais cinco ou dez anos, não
venha o próximo Presidente alertar para a quebra
da natalidade, como se uma novidade se tratasse.