| Público - 20 Dez 04
O Direito
à Esperança
Por MÁRIO
PINTO
1. No rescaldo
desta grande "trapalhada" democrática da dissolução da Assembleia da
República, que foi alegadamente o remédio para as "trapalhadas" do
Governo, talvez possamos concordar em que, tudo somado, a coisa não
foi exaltante. E de tal modo que não se apagará do currículo da
nossa vida política, para regalo dos teóricos e cisma dos analistas.
Segue-se um largo período em que o País, que tem estado em crise e
talvez iniciando um declínio, ficará sem um governo que governe, e
só pode aspirar a ver geridos assuntos correntes, o que quer que
isso seja.
Portanto,
restam as eleições. Como sempre, resta a esperança. Acerca da
esperança, o nosso povo, que tem muito mais sabedoria do que os
pós-modernistas acreditam, tem duas sentenças. Uma é: quem espera,
sempre alcança. Outra é: quem espera, desespera. Parecem
contradizer-se, mas eu não creio que sejam contraditórias; são
alternativas. Quando se espera, é-se tentado pelo desespero. Então,
ou se desespera, e o povo deixa-nos reticências, ou se mantém firme
a esperança, e o povo diz que se alcança. "A contrario", quem
desespera não alcança.
É este também
o combate que na vida espiritual cristã se conhece, quando se ensina
que deve sempre manter-se a esperança contra toda a desesperança -
aquele que desespera, perde-se. Talvez seja este o pecado contra o
Espírito Santo, único que não pode ser perdoado, diz a Escritura.
Pela simples razão de que se deixa de desejar-esperar o perdão.
2. Mas,
note-se bem, a esperança não é um acto passivo. É o mais activo dos
actos, porque resiste quando já todos se esgotaram. É a mais humilde
mas mais resistente das virtudes, é a última reserva do homem,
perante Deus, perante o mundo, perante si próprio.
E se é activa,
então activemos a nossa esperança. Na circunstância, trata-se de pôr
de lado a quezília político-partidária, que é inútil e já sobra, e
desafiar os partidos para apresentarem programas de governo que
sejam claros, precisos, completos. Não necessitamos de mais
programas que descrevam o ideal para cada sector da vida do País.
Como por exemplo: promover isto, intensificar aquilo, acabar com
aqueloutro. Sejamos mais concretos e apontados ao período da
legislatura. Necessitamos de saber como é que cada partido quer
resolver problemas bem precisos e identificados. Ou seja: faça cada
partido a lista dos problemas que considera decisivos para arrancar
com um verdadeiro, digno e sustentado desenvolvimento; e diga, para
cada problema, a solução que se compromete a aplicar.
3. Por favor,
não omitam como vão fazer as reformas mil vezes repetidas como
necessárias ao País: a reforma da Administração Pública; a reforma
do monopólio da educação pública; a reforma do monopólio estatal do
sistema nacional de saúde; a revisão de certos bloqueios
constitucionais; a reforma da justiça; um plano exigente de
regeneração de todo o sistema fiscal, para ser justo, leve quanto
possível, e acabar com a fuga aos impostos; a reforma do sistema
labiríntico da urbanização, que tem desgraçado o País; a luta contra
a corrupção e o combate à criminalidade e à insegurança; a reforma
dos regimes aplicáveis aos detentores de cargos políticos, para os
prestigiar, responsabilizar e dignificar; o combate à burocracia;
condições ágeis de iniciativa económica; em todos os domínios,
controlo e avaliação dos desempenhos, transparentes e eficazes,
premiando o mérito e tratando justamente o demérito.
Isto é apenas
uma lista de exemplos. E vários destes exemplos desdobram-se em
muitos problemas, que pedem respostas específicas, concretas, como
no caso da magna reforma da Administração Pública.
Sim, também
são necessárias declarações inequívocas de orientação. Por exemplo:
a favor ou contra a liberdade de educação? Isto é, contra ou a favor
do monopólio da escola pública? A favor ou contra o monopólio de
prestador directo de serviços do Estado no serviço nacional de
saúde? A favor ou contra a igualização do regime de trabalho no
sector público e no privado (exceptuados os órgãos e serviços de
soberania e os corpos de exercício de poderes públicos)? A reforma
do Estado Social, em que sentido?
Além disso, há
questões muito melindrosas do ponto de vista ético e moral.
Digam-nos os partidos muito claramente o que pensam acerca do aborto
e da eutanásia. Das experiências e manipulações genéticas. Do
casamento, da heterossexualidade e da homossexualidade, da família e
da adopção. Não queiram omitir estas coisas para depois nos
surpreenderem com medidas dramáticas sobre assuntos tão melindrosos.
Se não assumem posições e querem deixar os assuntos para referendo,
queiram dizê-lo sem papas na língua, porque os portugueses preferem
decidir por referendo questões fundamentais para as suas concepções
de vida do que assistir à rasquice dos debates parlamentares na
matéria. Porque não havemos de recorrer mais facilmente ao
referendo, se afinal descremos da classe política e, por outro lado,
todos os dias as televisões e as rádios referendam tudo no País?
Para não falar de outros tantos referendos que são as declarações
diárias de corporações sindicais e outras, sem esquecer as ONGs, "em
nome do seu povo"?
4. Os tempos
que aí vêm serão muito difíceis, a avaliar por tantos relatórios,
declarações e análises. As declarações de figuras eminentes e
responsáveis são inequívocas. Os portugueses já o sentem. Portanto,
na campanha eleitoral, a clareza dos diagnósticos, a clareza dos
programas de governo e o confronto democrático são preferíveis à
deterioração da nossa situação nacional: política, económica, social
e cultural. Se a nova legislatura não vier reerguer o País, pode
seguir-se uma grave crise nacional. Mais uma. O que aparenta ser
muito de admitir. Até agora, os vários partidos que começam a
ensaiar discursos de campanha eleitoral continuam a dar-nos cantos
de cigarra, como escreveu Rui Machete no "Diário de Notícias", em
vez de nos garantirem trabalhos de formiga.
5. ADENDA. Sobre "o direito a morrer". Há dias,
Eduardo Prado Coelho achou no PÚBLICO que a nova lei francesa que
concede a certos doentes o "direito de morrer" (eutanásia) é "uma
decisão histórica". Histórica... é capaz de ser. Mas a verdadeira
questão é saber se é boa ou má. Prado Coelho louva-a; eu condeno-a.
Esta divergência, que não pode aqui ser explanada por falta de
espaço, os leitores facilmente a compreenderão, porque não é nova; é
uma velhíssima "vexata quaestio" com milénios. O que surpreende é
que, aparentemente, ela parece ter deixado de ser complexa e
polémica para alguns.
Em sentido contrário ao desta nova lei, o
primeiro-ministro francês, Jean-Pierre Raffarin, terá dito que "a
vida não pertence aos políticos". Prado Coelho escreve simplesmente
que este dito foi um momento menos feliz do ilustre político. Eis
como se arruma uma declaração irrespondível; eis como se deita fora
um problema, em vez de o enfrentar e resolver. Num momento mais
feliz, Raffarin deverá agora dizer, depois da lei aprovada: "afinal,
enganei-me: de facto a vida pertence aos políticos".
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