| Diário de Notícias - 16 Dez 04 Avaliação da estratégia de
luta contra a droga
Governo não sabe quanto gasta e
falhou na prevenção
Avaliação externa refere ainda
«descoordenação» e falhas na prevenção
fernanda câncio
ESTUDO. INA considera
preocupante o aumento do consumo de 'cannabis' junto da população
escolar mas realça a aparente diminuição na heroína
A avaliação externa da Estratégia de Luta contra
a Droga encomendada pelo Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT)
ao Instituto Nacional de Administração (INA) tem uma visão severa da
actuação dos dois últimos executivos. Apesar de considerar a
Estratégia, delineada pelo governo de Guterres, «um excelente
exemplo de política pública, que merece uma nota muito alta», o INA
aponta a existência de uma deficiente «coordenação intersectorial»
que se agravou a partir de 2002/2003», de falhas na área da
prevenção, nomeadamente a nível escolar, e conclui que o Estado não
sabe quanto gasta neste combate.
Considerando «inadmissível» que os diferentes ministérios envolvidos
não consigam determinar os montantes gastos, Luís Valadares Tavares,
o presidente do INA, exemplificou a descoordenação existente com a
dificuldade de encontrar, entre os vários organismos ou numa mesma
estrutura quem se assumisse responsável por uma determinada área,
«para ao fim desse pingue-pongue encontrarmos alguém que diz ai sou
eu?».
Houve mesmo organismos que não responderam às solicitações do INA -
caso do Instituto de Reinserção Social e do Alto Comissário para a
Saúde. Quanto ao IDT, sobre o qual, segundo Valadares Tavares, a
avaliação não incidiu, teve gastos na ordem dos 350 milhões de euros
- montante cuja aplicação se distribui pelas variadíssimas
competências do instituto, do tratamento ao estudo, passando pela
prevenção.
Outra das «notas negativas» diz respeito à «excessiva
institucionalização e burocratização das estruturas públicas,
privadas e sociais que lidam com a área das dependências», a
ausência de «avaliações intercalares» (previstas na Estratégia mas
não efectuadas), e a falta de tratamento de dados e de recolha de
informação, que terá mesmo impedido que o estudo avaliasse a
prestação de alguns sectores.
No «terreno», o INA aponta a área da prevenção primária como aquela
em que houve mais falhas, dando o exemplo do desinvestimento na
Educação para a Saúde e na Rede de Escolas Promotoras de Saúde, sem
coordenação desde Janeiro de 2003. Uma situação que surge ao INA
como particularmente preocupante, já que, a partir dos inquéritos à
prevalência de consumos em meio escolar se conclui que se tem vindo
a verificar um aumento, nomeadamente no que respeita à cannabis.
Já a aparente descida nos consumos de heroína - e a estabilização no
número de dependentes deste opiáceo, evidenciada pela diminuição no
número de novas consultas em CAT, é apresentada como muito positiva.
Igualmente positivo, na avaliação do INA, é o aumento (de 267%, no
caso da cannabis, entre 1999 e 2003) do volume das apreensões
de substâncias ilícitas, à excepção da heroína, que desce 5%, mesmo
se de acordo com as instâncias internacionais que avaliam este
fenómeno, como o Observatório Europeu, este aumento é sempre
referido como indício de uma maior quantidade de droga em
circulação. Outra conclusão polémica do INA é a de que a diminuição
do número de «traficantes apanhados pela Polícia» entre 1999 e 2003
é negativa. Considerando que «deve haver mais traficantes» e
portanto «algo está a falhar», Valadares Tavares recomenda a revisão
da figura legal do «traficante-consumidor» e a clarificação da
distinção entre consumidor e traficante. Sucede que a diminuição
citada pode dever-se em parte ao facto de, no âmbito da Estratégia,
ter sido aumentado o limite de «doses médias diárias» que definem o
consumidor (anteriormente três, agora dez), levando a que quem antes
era identificado como «traficante» não o seja agora.
A diminuição do número de novas consultas em CAT também é vista pelo
INA como um factor negativo «Os consumidores de outras substâncias
que não a heroína não se apercebem de que têm um problema», explica
Valadares Tavares, comparando a situação às das pessoas que têm
altos níveis de colesterol e não sabem. Para este engenheiro de
sistemas, que dedicou a avaliação «a todos os jovens que caíram na
tentação da droga», qualquer consumo das substâncias psicoactivas
ilícitas é «um problema gravíssimo».
A distinção entre o nível de perigosidade das diferentes drogas e a
recusa de dogmas, dois aspectos essenciais e inovadores da
Estratégia em avaliação, parecem ter sido ignorados pelo INA.
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