Público - 26 Dez 03

Idosos São Deixados nos Hospitais na Época das Festas
Por POR BÁRBARA WONG (TEXTO) E MIGUEL MADEIRA (FOTO)

O número de idosos que chegam aos hospitais e são abandonados pelas famílias aumenta nas férias e épocas festivas. Apesar de o Inverno levar mais doentes às urgências, o que é certo é que muitos, depois de serem internados, ficam para além do dia em que lhes é dada a alta. Os hospitais criticam a falta de estruturas suficientes para apoiar os chamados "casos sociais".

O ano passado, por esta altura, António (nome fictício), 76 anos, sentiu-se mal e a médica de família encaminhou-o para o hospital porque estava com uma insuficiência cardíaca. Apesar de levar uma declaração médica, a profissional que estava no banco do Hospital de São Bernardo, em Setúbal, recusou o seu internamento.

"Na conversa, a médica dava a entender que muitos velhinhos são deixados no hospital para as famílias poderem sair e por isso mandou o meu pai para casa", conta a filha de António. Esta ainda falou com a médica de família, que lhe confirmou que muitas pessoas utilizavam o hospital como último recurso porque não tinham onde deixar os mais velhos. António foi para casa, as filhas vigiaram o seu estado de saúde e "felizmente ficou bem".

Este ano, o serviço de urgências do Hospital de São Bernardo já atendeu 18 doentes sem apoio familiar, oito eram pessoas sós e dez foram abandonados. O mais novo tinha 63 anos, acabou por falecer depois de ter estado duas semanas no hospital, após lhe ter sido dada alta clínica. O mais velho tinha 91 anos e foi reencaminhado para um lar. O tempo de permanência no hospital depois da alta varia entre dois dias e 20 semanas. No Hospital Curry Cabral, Lisboa, houve um utente que ficou mais de um ano, conta o director do serviço de urgência, João Machado.

Tanto no São Bernardo como no Curry Cabral surgem, todas as semanas, "dois ou três casos de resolução social". Em Setúbal, há familiares que dão "frequentemente" dados incorrectos, moradas e números de telefone falsos que obrigam os serviços a fazer um "trabalho policial" para os localizar, informa o gabinete de comunicação do São Bernardo.

No Hospital de São João, Porto, verifica-se que "na hora da alta, os familiares criam entraves, retardam e não querem receber os idosos em casa". As famílias trabalham ou, nesta altura, querem deslocar-se e o doente impossibilita esses planos, explica Madalena Holzer, do serviço de consulta externa e internamento.

Por outro lado, há certas doenças que são "devastadoras" para o agregado familiar - por exemplo, quando o doente fica dependente as famílias não têm condições e precisam de tempo para resolver a situação, justifica João Machado, do Curry Cabral.

Idosos acompanhados por filhos de 70 anos
O director do serviço de urgências do São João, António Oliveira Silva, confirma que há utentes que chegam ao banco nesta altura, mas não mais do que noutras épocas - nas férias "acontece mais". "Há muita gente a viver sozinha, sem apoio familiar, embora no Porto ainda haja uma certa solidariedade entre vizinhos", acrescenta o médico.

No Hospital Curry Cabral, Lisboa, a média de idade dos internados, nesta altura do ano, é de 70 anos. São doentes que não deveriam sequer estar naquela unidade hospitalar, mas noutra, entende o director do hospital, Pedro Canas Mendes. No entanto, estão internados porque chegam às urgências com problemas respiratórios, cardíacos, gastroentrites ou desidratações.

Canas Mendes faz um paralelismo, recorrendo a um texto de Curry Cabral: se hoje se deixam os idosos no hospital, há cem anos o número de "criadas de servir" doentes aumentavam no Verão, quando os patrões iam de férias.

Contudo, "a percepção é que há cada vez mais idosos e que não há estruturas para tê-los em casa", refere fonte do Hospital de São José, Lisboa, que pediu para não ser identificada. Muitos dos que dão entrada são acompanhados por filhos com 70 anos, informa. Outros são oriundos de lares que não os voltam a reintegrar porque não têm condições para ter doentes acamados.

Os casos dos idosos têm vindo a diminuir porque os serviços sociais dos hospitais agem com maior rapidez na procura de soluções, referem algumas das unidades de saúde contactadas.

Mas o sistema precisa de melhorar "antes e depois" da ida ao hospital, defende João Machado, do Curry Cabral. Deve haver um maior "interface e comunicação entre os cuidados no ambulatório e o serviço de urgência". Além disso, a rede de apoio social também deve melhorar. "Tem que haver um trabalho escrupuloso para não deixar discriminar os nossos velhos." É importante a criação de uma rede de cuidados continuados, defendem os médicos.

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